A sensação de esgotamento levou o grupo a uma decisão rara em bandas do mesmo porte: voltar ao ponto de partida. Durante as sessões de All That You Can’t Leave Behind, surgiu uma música provisoriamente chamada “Always”, embrião do que viria a ser “Beautiful Day”. O impasse apareceu cedo. Para Bono, a guitarra soava previsível demais. Para The Edge, soava honesta, porque era exatamente isso que ele tocava.
A frustração com o ciclo anterior ajudou a esclarecer o caminho. Pop havia apostado no conceito e no contexto histórico do fim do milênio, mas esquecido algo essencial: uma música capaz de conduzir o ouvinte. O retorno à composição, sem camadas excessivas ou ideias paralelas, passou a ser a prioridade. A banda precisava se ouvir novamente.
O momento de virada veio quase por acaso. Durante uma jam, Bono tropeçou em versos simples (“It’s a beautiful day / Don’t let it get away”) e ali a canção começou a se organizar. O que antes era rascunho ganhou centro, propósito e refrão. Não havia manifesto, apenas clareza.
Lançada em outubro de 2000, “Beautiful Day” recolocou o U2 no centro do jogo. Abriu o álbum, liderou paradas, sustentou uma das turnês mais bem-sucedidas da época e ajudou o grupo a redefinir sua posição no novo século. Em um show em Londres, meses depois, Bono resumiu o espírito do retorno ao anunciar, com ironia calculada, a nova candidatura da banda: “a melhor banda do mundo”.
Com mais de 12 milhões de cópias vendidas, All That You Can’t Leave Behind foi a prova de que, às vezes, avançar exige olhar para trás, e lembrar por que aquelas músicas começaram a existir.