Em 20 de fevereiro de 1967 nascia, em Aberdeen, no estado de Washington, Kurt Cobain, o garoto que, décadas depois, faria do desconforto existencial um idioma universal. Se estivesse vivo, completaria 59 anos nesta sexta-feira.
Cobain pertence àquelas figuras que não se vão, permanecem suspensas no tempo, congeladas entre distorções de guitarra e versos que parecem escritos à margem do mundo.
À frente do Nirvana, ele ajudou a redefinir o rock nos anos 1990. Quando Nevermind explodiu em 1991, não era apenas um disco que chegava ao topo das paradas, mas, sim, a queda simbólica do glamour oitentista e a ascensão de uma estética crua, desalinhada e visceral. “Smells Like Teen Spirit” virou hino involuntário de uma geração que não queria heróis, mas precisava de um espelho.
Kurt Cobain escrevia como quem rasga papel. Suas letras misturavam ironia, fragilidade e raiva contida. Havia algo de infantil e devastador na mesma medida. Um poeta punk que sabia que a fama era armadilha. Em entrevistas, demonstrava desconforto com o estrelato. No palco, parecia ao mesmo tempo gigante e deslocado. Essa tensão permanente se infiltrou nas músicas, tornando-as confessionais sem serem literais.
O álbum In Utero (1993) reforçou essa busca por autenticidade. Menos polido, mais abrasivo, soava como resposta às engrenagens da indústria. Já a apresentação no MTV Unplugged, em 1993, revelou a faceta vulnerável, quase etérea. Ali, Cobain mostrou que por trás da parede de ruído havia delicadeza e uma sensibilidade que tornava tudo ainda mais humano.
Sua morte precoce, em 1994, consolidou o mito, que só resiste porque a obra permanece. Kurt Cobain não foi apenas o rosto do grunge, mas o catalisador de uma inquietação que ainda ecoa. Em playlists atuais, em bandas que surgem com guitarras sujas e letras confessionais, há sempre um fragmento dele.
Se estivesse aqui, talvez rejeitasse qualquer celebração. Ainda assim, a data insiste em lembrar que alguns artistas não são apenas parte da cultura pop, tornam-se fragmentos da memória emocional coletiva. Kurt Cobain é um desses nomes que continuam a sussurrar no volume máximo.