Há discos que envelhecem como fotografia desbotada. Outros permanecem como um neon aceso na madrugada. Sexo!!, lançado em 1987 pelo Ultraje a Rigor, há exatos 39 anos, pertence ao segundo tipo. Quase quatro décadas depois, ainda pulsa com a mesma energia debochada, como se tivesse sido gravado entre uma fita cassete rebobinada com caneta Bic e uma conversa atravessada no balcão de um bar qualquer da Augusta.
Na superfície, tudo parece leve, até infantil. Guitarras diretas, refrões grudentos, aquela estética meio garageira que flerta com o punk e a new wave sem pedir licença. Mas basta escutar com um pouco mais de atenção para perceber que Roger Moreira e companhia estavam jogando outro jogo. Um jogo de ironia, de provocação, de desmontar a caretice brasileira com um sorriso torto no canto da boca.
A faixa-título, “Sexo!!”, é quase um manifesto travestido de piada. Em plena ressaca da ditadura, quando a censura ainda deixava seus rastros invisíveis, cantar sobre sexo era menos sobre desejo e mais sobre liberdade. A repetição quase infantil da palavra funciona como uma afronta. Um lembrete de que o proibido ainda rondava, mesmo quando já não era oficialmente proibido.
“Pelado” entra como um tapa mais direto. Uma crítica ao moralismo que insiste em se vestir de virtude enquanto observa tudo por trás da cortina. Há algo ali que dialoga com o espírito de bandas como The Clash e até com o sarcasmo dos Dead Kennedys, mas filtrado por uma brasilidade que prefere rir antes de discursar. O Ultraje nunca foi panfletário. Preferiu o riso que constrange, a piada que revela.
E talvez seja essa a chave do disco. Enquanto boa parte do rock nacional da época mergulhava em existencialismos urbanos ou romantismos sombrios, o Ultraje escolheu o caminho do escracho. Um escárnio sagaz, consciente do próprio papel. Algo que conversa tanto com o humor de Os Mutantes quanto com a irreverência pop que viria depois, em nomes que entenderam que crítica também pode dançar.
“Eu Gosto de Mulher” carrega uma camada curiosa quando revisitada hoje. Entre a provocação e a caricatura, a música revela muito sobre o imaginário masculino da época, quase como um retrato involuntário de seus limites. E é justamente aí que o disco ganha outra dimensão. Ele não apenas critica o Brasil, mas também expõe o Brasil, com suas contradições, seus vícios e gestos automáticos.
O som segue seco, direto, sem ornamentos desnecessários. Nada ali soa pretensioso. E talvez seja por isso que resista tão bem ao tempo. Enquanto produções mais ambiciosas envelheceram presas à estética da década, Sexo!! continua com cara de produto vivo Algo que poderia surgir hoje, em um quarto apertado, gravado às pressas, carregando a urgência de quem tem algo a dizer e não quer esperar.
Ouvir o disco em 2026 é uma experiência quase desconcertante. Não pela nostalgia, mas pela familiaridade. O moralismo ainda está por aí. A hipocrisia também. O riso, felizmente, continua sendo uma arma.
Sexo!! não pede para ser levado a sério o tempo todo. Mas exige ser escutado com atenção. Entre uma piada e outra, ele segue dizendo verdades que muita gente ainda prefere fingir que não ouviu.