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The Final Cut, 43 anos depois, e ainda aqui
O dia em que o silêncio começou a ocupar o lugar do Pink Floyd com a saíde de Roger Waters.
Por Redação Rádio VB
Publicado em 21/03/2026 06:00
Música
The Final Cut foi décimo segundo álbum de estúdio da banda Pink Floyd (Foto: Divulgação)

21 de março de 1983 não soa como uma data de celebração. Surge como despedida. Quando o Pink Floyd lançou The Final Cut, o mundo ainda digeria os escombros da Guerra das Malvinas e a ressaca ideológica de um Ocidente cada vez mais endurecido. O álbum nasce nesse terreno instável, onde política e memória se misturam, e Roger Waters transforma o disco em um diário amargo, quase claustrofóbico. É o último capítulo com sua presença e, curiosamente, o mais solitário de todos.

Há algo de literário na construção do álbum, como se Waters estivesse escrevendo cartas que nunca seriam enviadas. Ecos de Wilfred Owen e da poesia de guerra atravessam as letras, enquanto a música abandona qualquer impulso épico para se recolher em arranjos contidos, quase espectrais. Não há aqui o espetáculo de The Dark Side of the Moon nem a arquitetura grandiosa de The Wall. O que resta é um campo devastado, e cada faixa parece surgir como um fragmento de consciência, uma tentativa de organizar traumas que insistem em não se calar.


The Final Cut foi o último trabalho de Roger Waters com o Pink Floyd (Foto: Divulgação)


Musicalmente, o disco carrega tensões que já não se disfarçam. Richard Wright está ausente, David Gilmour aparece como sombra em alguns momentos, e Waters assume o controle total, escrevendo e cantando praticamente tudo. A exceção, “Not Now John”, surge quase como um ruído dentro da narrativa, um último lampejo de energia em meio à introspecção densa. O restante do álbum respira de forma contida, como se cada acorde precisasse pedir licença para existir.

Com o tempo, The Final Cut deixou de ser visto apenas como um apêndice de The Wall e passou a ocupar um espaço próprio. Um disco desconfortável, que recusa o fácil, que não se oferece ao ouvinte. Talvez por isso permaneça tão emblemático. Em um mundo que continua flertando com seus próprios abismos, a voz de Waters ainda ecoa, não como resposta, mas como ferida aberta.

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