Quando The Boys estreou em 2019, parecia apenas mais uma sátira ultraviolenta sobre super-heróis em um mercado saturado de capas, explosões digitais e moralidade plastificada. Poucos imaginavam que a série criada por Eric Kripke acabaria se tornando uma das produções mais ácidas e politicamente desconfortáveis da televisão recente. Ao fim de sua trajetória no Prime Video, fica a sensação de que a série nunca esteve realmente interessada em heróis. O alvo sempre foi o espetáculo em torno deles.
Inspirada nos quadrinhos de Garth Ennis e Darick Robertson, The Boys usou a estrutura do entretenimento pop para desmontar mitologias modernas ligadas ao poder, ao nacionalismo, ao consumo e à manipulação das massas. Capitão Pátria talvez tenha sido o grande símbolo disso tudo. Antony Starr construiu um personagem que atravessou a cultura pop contemporânea como uma mistura perturbadora de celebridade, político populista, messias midiático e psicopata corporativo. Um vilão tão absurdo quanto plausível.
Ao longo das temporadas, a série encontrou seu melhor equilíbrio quando abandonou parte do choque gratuito para aprofundar o vazio emocional dos personagens. Hughie, Butcher, Annie January e Kimiko carregavam cicatrizes muito mais interessantes do que qualquer cena de carnificina explícita. E embora The Boys tenha exagerado algumas vezes na própria fórmula, especialmente quando parecia competir consigo mesma em violência e bizarrice, nunca perdeu totalmente a capacidade de provocar desconforto genuíno.
Existe também algo profundamente simbólico no momento em que a série chega ao fim. The Boys nasceu durante o auge da era dos super-heróis e terminou justamente quando o desgaste desse modelo começou a ficar evidente no cinema e no streaming. Enquanto Marvel e DC tentavam preservar heroísmos clássicos, a série preferiu mostrar o que existiria por trás das capas se superpoderes fossem absorvidos pelo capitalismo de plataforma, pela lógica eleitoral e pelo fanatismo digital.
No fim, The Boys talvez tenha funcionado, para além paródia, como diagnóstico cultural. Uma série sobre pessoas desesperadas tentando sobreviver em um mundo onde tudo virou marca, performance e manipulação emocional. Inclusive os salvadores.
★★★★★☆ (4,5 de 5 estrelas)