A versão de Fiona Apple para "Across the Universe" foi além da homenagem e virou um ritual de exumação emocional. Gravada para a trilha de Pleasantville (1998), a faixa desacelera o otimismo psicodélico original de Lennon para um andamento quase hipnótico, em que o piano serve como uma âncora pesada em um mar de calmaria aparente.
Apple canta sussurrando um segredo incômodo em uma igreja vazia, transformando o mantra "Jai Guru Deva Om" de um aceno cósmico em um lamento íntimo e terroso.
O videoclipe, dirigido por Paul Thomas Anderson, solidifica essa atmosfera cult com uma precisão cirúrgica de baixa luminosidade. Enquanto o caos em preto e branco explode ao seu redor em uma lanchonete vandalizada, Fiona permanece estática, orbitando o próprio fone de ouvido. Essa justaposição visual traduz perfeitamente a essência da faixa. O mundo exterior pode ruir em ruído e fúria, mas a voz dela cria um vácuo de quietude magnética que isola o ouvinte do resto do planeta.
Duas décadas depois, essa reinterpretação sobrevive como um manifesto da estética alternativa do final dos anos 90. Longe dos clichês de covers grandiosos, a faixa brilha justamente pelo que decide omitir. Ao esvaziar os arranjos originais e injetar uma dose sutil de urgência psicológica, Fiona Apple provou que a verdadeira transcendência não está em alcançar as estrelas, mas em mergulhar sem medo no isolamento da própria mente.