Muito antes de se tornar o rosto relutante de uma geração e o alvo favorito das grandes gravadoras, o Nirvana era apenas um trio de garotos suburbanos e entediados de Aberdeen, uma cidadezinha cinzenta e úmida no estado de Washington. Em 15 de junho de 1989, com um orçamento ridículo de pouco mais de 600 dólares (emprestados pelo guitarrista Jason Everman) e gravado sob o teto claustrofóbico do Reciprocal Recording em Seattle, a banda lançava Bleach, seu álbum de estreia pela Sub Pop.
O título do disco, inspirado por uma campanha de conscientização para que usuários de drogas injetáveis limpassem suas agulhas com alvejante (bleach), já entregava o tom da obra. Não havia espaço para o glamour ou para o virtuosismo técnico que dominava as rádios da época. O som era pesado, sujo, influenciado pelo metal arrastado do Black Sabbath e pelo niilismo cru do punk rock. Kurt Cobain despejava suas primeiras composições confessionais através de guitarras propositalmente desafinadas e um vocal que parecia rasgar a garganta a cada tomada de áudio, enquanto a cozinha rítmica de Krist Novoselic e Chad Channing ditava um compasso denso e industrial.
Bleach é o retrato perfeito do rock antes da higienização da indústria. Faixas como "Blew", "School" e a rítmica "About a Girl" (a primeira grande amostra do faro de Cobain para melodias pop irresistíveis sob camadas de ruído) mostravam um Nirvana em seu estado mais puro e selvagem.
Revisitar esse álbum hoje, exatamente 37 anos depois, é entender que a revolução cultural que explodiria globalmente dois anos mais tarde com Nevermind não nasceu do nada. Ela foi gestada no sombrio, no barulho desalinhado e no absoluto tédio de um disco que cheirava a óleo de motor e frustração juvenil.