Ouvir "In the Morning", do The Coral, é como assistir a um filme em Super-8 rodado em uma praia nublada da Inglaterra nos anos 19060. A faixa abre com uma urgência ensolarada, mas carrega em suas entrelinhas aquela névoa nostálgica típica do rock psicodélico de Merseyside. É um jovem clássico pop perfeitamente moldado para os desajustados, uma canção que parece alegre na superfície, mas que esconde uma leve ressaca existencial em seus arranjos de teclado e guitarras saltitantes.
A banda de Hoylake sempre flertou com o anacronismo, recusando se encaixar no visual polido do indie britânico dos anos 2000. Em vez disso, eles resgataram o folk-rock barroco e injetaram um groove irresistível que transforma o ato banal de acordar em um manifesto estético. "In the Morning" captura o exato instante em que o sonho da noite passada se choca com a realidade crua do amanhecer, embalado por um otimismo quase melancólico.
A faixa funciona como um clássico cult instantâneo justamente por sua simplicidade magnética. Ela não precisa de excessos para evocar uma atmosfera de fuga, basta a repetição hipnótica de seu refrão e aquela linha de baixo pulsante para nos transportar a um lugar onde o tempo corre mais devagar. É a trilha sonora ideal para os dias em que a única revolução possível é abrir a janela e ver o mundo recomeçar.