Quando os Engenheiros do Hawaii desceram do pedestal elétrico em 2004 para o Acústico MTV, "O Papa é Pop" deixou de ser apenas um hino irônico das rádios dos anos 90 para se transformar em um espelho incômodo.
Despida das guitarras estridentes da era O Papa é Pop (1990), a canção ganhou uma roupagem folk-existencialista. Humberto Gessinger, munido de seu violão e de uma gaita poética, transformou o cinismo original em uma crônica acústica sobre a mercantilização da fé e da própria arte.
O impacto dessa versão reside no paradoxo de criticar a espetacularização cultural dentro da MTV, o maior templo da indústria fonográfica da época. Ao trocar o pulso do pop rock sintético por arranjos de cordas mais orgânicos e uma percussão quase tribal, a faixa desacelera o ritmo frenético do consumo de massas para nos obrigar a ouvir a letra. A santificação do banal já não era uma profecia para o novo milênio. No palco desplugado, ela já era um fato consumado e aplaudido.
O "Papa" do Acústico é, portanto, mais introspectivo do que nunca. Deixa de ser um deboche juvenil e assume a postura de um manifesto maduro sobre como tudo (do Vaticano ao underground) inevitavelmente vira mercadoria com código de barras. É o pop engolindo a si mesmo, esteticamente impecável, autocrítico e eterno.