Longe dos holofotes dourados que costumavam coroar Rita Lee como a rainha incontestável do pop brasileiro, existe um território de penumbra elegante onde a engrenagem criativa do casal se revela de forma mais íntima. "É A Vida" é o portal para essa dimensão. Quando Roberto de Carvalho assume o microfone principal, a atmosfera muda drasticamente. O deboche solar e psicodélico dá lugar a uma melancolia urbana, envelopada por sintetizadores oitentistas que parecem flutuar sobre o asfalto molhado de uma madrugada qualquer.
A faixa opera como um segredo compartilhado entre iniciados, um verdadeiro clássico escondido em sua vasta discografia. Enquanto Rita tece os apoios vocais com sua doçura magnética de sempre, a voz de Roberto carrega uma urgência existencialista quase sussurrada, despida de qualquer virtuosismo pretensioso. É o pop em seu estado mais sofisticado e minimalista, capturando perfeitamente o tédio poético e a beleza inevitável de ver o tempo passar.
A canção se veste com nuances de new wave para se consolidar como um grito estético de uma simbiose sem paralelos na música. "É A Vida" parece sintonizar uma rádio pirata de ondas curtas no meio da noite, uma experiência nostálgica, profundamente cinematográfica. Uma prova que o lado mais silencioso de Rita e Roberto é, muitas vezes, onde mora a sua maior força.