Ainda é madrugada quando cinco homens embarcam em direção ao povoado de Itapera, no município de Icatu. Entre maracás, toadas e conversas, eles levam para o outro lado da Baía de São José histórias recebidas dos mais velhos, promessas, devoções e uma maneira de compreender o mundo moldada pelo bumba meu boi.
Essa viagem conduz “Toadas em Riba do Mar”, novo documentário poético-etnográfico da produtora maranhense Versobaiô. Dirigido por Igor Nascimento e Lauande Aires, o filme acompanha cinco amos do bumba meu boi durante o deslocamento para uma cantoria realizada no período de ensaios da temporada junina de 2025.
A primeira exibição ocorrerá nesta sexta-feira (7), às 19h, no Cine Sesc, na Praça Deodoro, em São Luís, em sessão destinada a convidados. No dia 15 de agosto, também às 19h, o documentário será apresentado gratuitamente em frente à sede do Boi de Itapera, comunidade onde parte da narrativa foi construída.
Cinco mestres e muitas memórias
Participam da travessia Francisco Correia, o Chagas, do Boi de Ribamar; Antônio Egídio, do Boi de Panaquatira; José Antônio Canário, do Boi Tesouro da Ilha; Ronaldo Dantas, o Ronaldinho, do Boi Tremor da Campina; e José Martins Galvão, do Boi de Juçatuba.
As trajetórias dos cinco mestres ajudam a revelar como o canto funciona como guardião da memória coletiva. Ao longo da viagem, suas histórias se misturam às paisagens do mar, dos manguezais e das comunidades tradicionais, formando um retrato de pertencimento, ancestralidade e continuidade.
A câmera não se limita a registrar o destino. O caminho ganha protagonismo: a luz surgindo sobre a baía, a textura das embarcações, o vento sobre o barco, os gestos dos mestres e os silêncios entre uma toada e outra compõem a experiência visual.
Bumba meu boi também orienta a narrativa
A estrutura do documentário foi inspirada no próprio auto do bumba meu boi, seguindo um percurso que vai do guarnicê à despedida. A manifestação cultural, portanto, não aparece apenas como assunto, mas orienta a construção e o ritmo do filme.
Em lugar de recorrer a explicações constantes, “Toadas em Riba do Mar” aposta na observação e na oralidade. O espectador é convidado a acompanhar um tempo marcado pelas marés, pelos rituais e pelos vínculos que unem os amos aos territórios onde vivem.
Para o codiretor Lauande Aires, a história não estava somente na cantoria, mas em tudo aquilo que a antecede.
“Existe um universo de encontros, memórias, trabalho, espiritualidade e afeto que raramente é visto. Ao acompanhar essa travessia, fomos percebendo que o próprio bumba meu boi nos ensinava como o filme queria ser contado”, afirma.
Retorno ao território de origem
A exibição em Itapera foi pensada como uma devolução do filme à comunidade que participou de sua realização. Segundo Igor Nascimento, apresentar a obra no povoado reconhece que a narrativa nasceu daquele território e pertence, antes de tudo, às pessoas que ajudaram a construí-la.
O documentário dá continuidade à pesquisa da Versobaiô sobre as relações entre cinema, dramaturgia e cultura popular maranhense. O coletivo também realizou obras como “O Miolo da Estória” e “Bomba: no Miolo da História”.
Viabilizado por edital estadual com recursos da Lei Paulo Gustavo, “Toadas em Riba do Mar” propõe uma viagem por um Maranhão conduzido pelo canto de seus mestres — um lugar onde atravessar o mar também significa transportar memórias de uma geração para outra.
Serviço
São Luís: 7 de agosto, às 19h, no Cine Sesc, localizado na Avenida Silva Maia, nº 164, Praça Deodoro, Centro. Sessão para convidados.
Itapera, em Icatu: 15 de agosto, às 19h, em frente à sede do Boi de Itapera. Exibição aberta ao público.
Informações: @versobaio