Jenni Mosello precisou vencer dois meses de insegurança para enviar uma mensagem que mudaria os rumos de seu novo álbum. Do outro lado da conversa estava Ney Matogrosso, artista que ela nunca havia encontrado, mas cuja trajetória reconhece como uma das inspirações para seguir na música. A resposta chegou no mesmo dia, direta e surpreendente: ele havia gostado da canção e aceitado gravá-la.
A colaboração integra BRava, disco de 13 faixas que também reúne participações de Xenia França, Elana Dara, Dani Black e Marcelo Tofani. A ideia de convidar Ney surgiu depois que um amigo ouviu uma das primeiras composições do projeto e percebeu que a música poderia ganhar outra dimensão com a presença do cantor.
Mesmo tendo conseguido o contato, Jenni hesitou. Quando finalmente decidiu escrever, enviou um longo relato sobre sua admiração e explicou que sua própria caminhada artística também havia sido possível porque Ney abrira caminhos antes dela. A cantora esperava qualquer reação, inclusive o silêncio, menos uma resposta positiva no mesmo dia.
Por causa da agenda do artista, a gravação aconteceu somente em 14 de maio, a duas semanas do lançamento do álbum, marcado para 29 daquele mês. A proximidade das datas aumentou a tensão, mas deu ao projeto um desfecho à altura do risco assumido.
Para Jenni, a importância do encontro ultrapassa a faixa gravada. Ney não perguntou sobre números nas plataformas, alcance nas redes sociais ou estrutura de gravadora. Ouviu a composição, gostou e decidiu participar. O gesto devolveu à cantora a confiança em uma indústria na qual a música, por vezes, parece subordinada às métricas.
Coragem para mostrar o que antes ficava escondido
O título BRava traduz o estado de espírito necessário para Jenni concluir o trabalho. Mais íntimo e distante de seus lançamentos anteriores, o álbum nasceu de um processo de autoconhecimento e exposição emocional. Colocá-lo no mundo exigiu que a artista aceitasse suas fragilidades sem tentar amenizá-las para agradar expectativas externas.
Essa liberdade também aparece na maneira como ela interpreta a própria brasilidade. Criada fora do país e marcada pelas referências do Sul, Jenni demorou a compreender que sua experiência também poderia servir como matéria-prima para falar sobre o Brasil.
Em vez de reproduzir uma representação tropical e uniforme do país, a cantora reivindica um Brasil mais frio, azul e conectado às paisagens que atravessaram sua formação. A descoberta permitiu que ela assumisse sua origem sem pedir licença ou tentar encaixá-la em uma imagem previamente estabelecida.
Uma artista que já não negocia a própria identidade
Desde sua participação no X Factor Brasil, em 2016, Jenni Mosello percorreu um caminho que inclui reconhecimento como compositora e indicações ao Grammy. Durante parte dessa trajetória, admite ter moldado escolhas para corresponder ao que outras pessoas esperavam de sua música.
Em BRava, essa necessidade perde espaço. A autenticidade deixa de ser apenas um discurso e passa a orientar as composições, os encontros e a sonoridade do disco. Jenni já não trata a fidelidade a si mesma como uma opção, mas como uma condição para continuar criando.
O álbum não encerra essa busca. Ao contrário, abre espaço para novas experiências. Depois de reunir vozes importantes da música brasileira e realizar o improvável encontro com Ney Matogrosso, Jenni já demonstra interesse em explorar universos como o forró e o samba de roda. BRava surge, assim, menos como um ponto de chegada e mais como o momento em que ela finalmente assume o direito de escolher os próprios caminhos.