Linhas, tecidos, bordados e peças de crochê deixam o espaço doméstico e assumem uma dimensão artística, política e afetiva na exposição Marlene Barros: Tecitura do Feminino. A mostra será aberta na próxima quarta-feira (26), no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo, reunindo diferentes momentos da trajetória de mais de quatro décadas da artista maranhense.
Com curadoria de Betânia Pinheiro, a exposição apresenta 15 trabalhos, entre esculturas, instalações, objetos e intervenções têxteis. É a primeira mostra individual de Marlene Barros no CCBB e permanecerá aberta ao público, com entrada gratuita, até 25 de janeiro de 2027.
O conjunto aborda questões como corpo, maternidade, sexualidade, identidade, violência, pertencimento e memória. Em vez de organizar as obras cronologicamente, a curadoria aproxima trabalhos de diferentes períodos por meio dos materiais, dos afetos e das experiências femininas que atravessam a produção da artista.
Costura como reparação
Natural de Bacurituba, no Maranhão, Marlene Barros desenvolveu uma linguagem na qual práticas historicamente atribuídas às mulheres são retiradas do campo meramente utilitário. Em suas obras, costurar, bordar e tecer tornam-se formas de elaborar cicatrizes, preservar lembranças e questionar a desvalorização do trabalho feminino.
Parte dessa pesquisa nasceu durante o mestrado da artista em Arte Contemporânea na Universidade de Aveiro, em Portugal. A proposta inicial envolvia uma intervenção em uma casa em ruínas situada no campus da instituição.
A experiência levou Marlene a estabelecer conexões entre arquitetura, corpo e memória. Assim como uma construção pode ser remendada para permanecer de pé, a costura aparece em seu trabalho como gesto simbólico de cuidado e reconstrução.
“Essa exposição nasceu de uma pesquisa muito íntima sobre a condição da mulher, os saberes transmitidos entre gerações, o trabalho invisibilizado, os afetos, as cicatrizes e as resistências que atravessam nossas vidas”, explica a artista.
Segundo Marlene, cada visitante amplia os sentidos das obras a partir das próprias vivências. “Esse é, para mim, o verdadeiro sentido da arte”, afirma.
Rostos, cicatrizes e relações familiares
Entre os destaques da exposição está Eu tenho a tua cara, instalação formada por 49 rostos femininos. A obra discute identidade, alteridade e as influências sociais envolvidas na formação de cada indivíduo.
Em Caixa Preta, fotografias, colagens, escritos e intervenções têxteis constroem uma espécie de autorretrato expandido, marcado por lembranças pessoais e relações afetivas.
O trabalho Coso porque está roto utiliza um casaco bordado para aproximar corpo, cura e reparação. Já a instalação Entre nós propõe uma imersão em peças de crochê, revisitando uma prática transmitida entre gerações de mulheres.
Em Quem pariu, que embale, a artista contesta a ideia de que cuidar dos filhos e da família seja uma responsabilidade naturalmente feminina. A obra questiona como tarefas essenciais à vida foram historicamente atribuídas às mulheres, quase sempre sem reconhecimento.
Exposição percorreu São Luís e Belo Horizonte
Antes de chegar à capital paulista, Tecitura do Feminino passou por São Luís e Belo Horizonte. Para a curadora Betânia Pinheiro, a nova etapa amplia uma conversa que não termina dentro da galeria.
“Esperamos que o público de São Paulo entre nessa ciranda para dar continuidade a esse diálogo. É uma conversa que não se encerra nas obras, mas se amplia nas experiências compartilhadas entre muitas pessoas”, declara.
A proposta, segundo a curadora, é estimular reflexões sobre o feminino como uma construção histórica, social e cultural, além de reconhecer as mulheres que preservaram saberes e abriram caminhos para novas gerações.
Atividades aproximam público das técnicas
Durante o período da exposição, o CCBB promoverá visitas mediadas, oficinas, performances, palestras e práticas de ateliê. A programação educativa permitirá que visitantes experimentem técnicas utilizadas por Marlene, como bordado, costura, crochê e fiação.
Entre as atividades está o espaço sensorial Tornar-se Pele, criado como uma travessia simbólica pelas diferentes “peles” que compõem uma pessoa. A ação cênico-musical Tear-te transforma os movimentos repetitivos do trabalho manual em ritmo, enquanto COMfiar utiliza fios, tramas e nós para aproximar o público dos significados presentes nas obras.
A programação infantil também estabelecerá uma ligação direta com a cultura do Maranhão. Na oficina Eu tenho sua máscara, as crianças poderão criar uma nova face para o Cazumbá, personagem emblemático do Bumba Meu Boi da Baixada Maranhense.
Haverá ainda experiências de bordado em papel, pedra e madeira, contação de histórias, leituras, oficinas de fiação e atividades voltadas a educadores, artistas, estudantes e produtores culturais.
No dia 29 de agosto, às 10h, Betânia Pinheiro comandará uma visita mediada. Em outubro, a curadora ministrará um workshop sobre curadoria, mediação e acessibilidade. Marlene Barros conduzirá, entre 12 e 15 de novembro, a oficina Arpilleras de si, destinada a mulheres cis e trans, pessoas não binárias, artesãs e artistas maiores de 18 anos.
Trajetória ligada à arte maranhense
Além de artista visual, Marlene Barros atua como pesquisadora e produtora cultural. É coordenadora do Ateliê Marlene Barros e do Ponto de Cultura Coletivo ZBM, espaços voltados à formação artística e ao fortalecimento da produção cultural do Maranhão.
Graduada em Desenho Industrial pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a artista é especialista em Artes Visuais: Cultura e Criação pelo Senac e mestre em Arte Contemporânea pela Universidade de Aveiro.
Sua produção abrange escultura, pintura, performance, crochê, instalação e intervenção artística, tendo as experiências femininas como principal campo de investigação.
Serviço
Exposição: Marlene Barros: Tecitura do Feminino
Período: 26 de agosto de 2026 a 25 de janeiro de 2027
Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo
Endereço: Rua Álvares Penteado, 112, Centro Histórico, São Paulo
Funcionamento: de quarta a segunda-feira, das 9h às 20h; fechado às terças-feiras
Entrada: gratuita
Informações: (11) 4297-0600