Em “My Sweet Lord”, George Harrison procurava algo maior que uma canção. Queria aproximar crenças diferentes por meio de um refrão no qual “Hallelujah” e “Hare Krishna” pudessem coexistir. Lançada em 1970 no monumental All Things Must Pass, a faixa levou a espiritualidade do ex-Beatle ao topo das paradas, mas também o conduziu a um dos processos mais emblemáticos da história da música.
A disputa começou em 1971, quando a editora Bright Tunes Music, detentora dos direitos de “He’s So Fine”, acusou Harrison de copiar a composição escrita por Ronnie Mack e gravada pelas Chiffons em 1962, embora seu sucesso comercial tenha ocorrido no ano seguinte. A semelhança estava na sequência dos motivos melódicos e na estrutura harmônica das duas músicas.
Harrison negou ter feito uma reprodução deliberada. Segundo seu relato, “My Sweet Lord” nasceu de acordes improvisados e de uma inspiração assumidamente ligada à atmosfera gospel de “Oh Happy Day”. O problema é que “He’s So Fine” havia sido um grande êxito dos anos 1960 e, como reconheceu o próprio músico, era uma canção que ele conhecia.
A canção escondida na memória
Em 31 de agosto de 1976, o juiz Richard Owen concluiu que Harrison não havia copiado conscientemente a obra de Ronnie Mack. Ainda assim, considerou que a melodia anterior permanecera guardada em sua memória e ressurgira durante o processo de composição. A decisão, formalizada com uma alteração no dia seguinte, responsabilizou o músico por violação de direitos autorais, ainda que praticada de maneira inconsciente. A sentença descreveu as duas estruturas musicais como praticamente idênticas, com exceção de uma passagem.
Nascia ali a expressão que acompanharia “My Sweet Lord” pelas décadas seguintes: “plágio inconsciente”. O caso colocou uma questão desconfortável no centro da criação artística: até que ponto um compositor consegue separar aquilo que inventa do que permaneceu adormecido em sua memória?
Toda música carrega vestígios de outras canções. A criação não acontece em uma sala vazia, mas em meio a refrões antigos, progressões familiares e melodias absorvidas sem que se perceba. Harrison acabou condenado justamente nessa região nebulosa entre influência e reprodução, sem má-fé reconhecida, mas com responsabilidade legal.
Entre o tribunal e a permanência
O episódio o deixou frustrado e afetou sua relação com a composição. Harrison respondeu à controvérsia com “This Song”, lançada em 1976, uma faixa irônica que transformou a experiência no tribunal em sátira sobre notas musicais, especialistas e acusações de plágio.
O processo mudou a maneira como “My Sweet Lord” passou a ser discutida, mas não diminuiu sua força. A guitarra slide, a produção grandiosa de Phil Spector e a progressão vocal que atravessa referências cristãs e hindus fizeram da gravação algo muito maior que sua arquitetura melódica.
Cinquenta anos depois do veredito, a ironia permanece. Uma canção sobre a busca pelo divino ficou presa a uma discussão profundamente terrena sobre propriedade. “My Sweet Lord” sobreviveu ao processo porque, embora sua melodia carregasse uma lembrança involuntária, sua emoção pertencia inteiramente a George Harrison.