Em 4 de setembro de 1962, quatro rapazes de Liverpool entraram no Studio 2 da EMI, em Londres, para gravar “Love Me Do”. Ainda não eram os personagens monumentais que a história fabricaria depois. Eram uma banda tentando convencer produtores, dominar o nervosismo e transformar a experiência dos clubes em um pequeno disco de sete polegadas.
A música parecia modesta até para os padrões da época. Poucos acordes, uma letra sem enigmas e uma gaita de John Lennon cortando a melodia como um trem atravessando a madrugada. Paul McCartney assumiu o trecho principal do refrão porque Lennon precisava tocar o instrumento — e a tensão na voz ajudou a dar humanidade ao registro.
A sessão de 4 de setembro marcou a primeira gravação da faixa com Ringo Starr na bateria. “Love Me Do” foi registrada três vezes em 1962: com Pete Best, em junho; com Ringo, naquela data; e com o músico de estúdio Andy White, em 11 de setembro. A versão com Ringo foi usada no primeiro compacto britânico do grupo, lançado em 5 de outubro.
Há algo quase doméstico nessa gravação, distante da sofisticação que viria em Revolver, Sgt. Pepper’s ou Abbey Road. O encanto está justamente na ausência de grandeza programada. “Love Me Do” não anuncia uma revolução; apenas insiste numa frase, encontra um ritmo e espera que alguém do outro lado esteja ouvindo.
Sessenta e quatro anos depois, escutá-la é voltar ao instante anterior ao mito. Os Beatles ainda não haviam redesenhado o estúdio, a juventude e a própria ideia de uma banda. Mas o primeiro sinal já estava ali: dois minutos de aparente inocência, uma gaita rouca e quatro músicos prestes a tornar o mundo pequeno demais para o som que fariam.