A capa de Abbey Road parece simples. Quatro homens atravessam uma rua de Londres, sem olhar para a câmera. Em 26 de setembro de 1969, quando o disco chegou às lojas, ninguém sabia ao certo que aquela seria a última vez que os Beatles gravariam um álbum juntos. Let It Be ainda seria lançado, mas Abbey Road guarda o som de uma banda chegando ao fim enquanto continua a descobrir o que pode fazer.
De um lado, há a aspereza de “Come Together”, a ternura desarmante de “Something” e o sol que George Harrison deixa entrar em “Here Comes the Sun”. Do outro, pequenas canções se encostam até formar o longo medley da segunda metade.
Uma ideia interrompida encontra acabamento na seguinte. Os Beatles, que já não conseguiam permanecer unidos por muito tempo, ainda sabiam escutar uns aos outros dentro de uma música.
O encerramento não procura esconder a despedida. Depois do movimento coletivo de “The End”, surge a brevíssima “Her Majesty”, quase como uma porta que bate fora de hora. É um detalhe muito Beatles. Mesmo na saída, sobra espaço para uma brincadeira. Cinquenta e sete anos depois, Abbey Road continua a soar como um monumento intacto, mas, também, como gente trabalhando, discordando e, por alguns minutos, acertando tudo.