Há artistas que passam a vida dividindo espaço com uma única canção. Chris de Burgh, que completa 78 anos nesta quinta-feira (15), conhece bem essa convivência. Bastam os primeiros acordes de “The Lady in Red” para reaparecer um cenário inteiro, com luz baixa, dança a dois e alguém reparando na pessoa amada como se a visse pela primeira vez. O grande sucesso de sua carreira permanece ligado a essa suspensão do cotidiano, quando uma noite aparentemente comum ganha lugar definitivo na memória.
Lançada em 1986 no álbum Into the Light, a música aposta numa declaração sem grandes desvios. O arranjo acompanha a voz com discrição e deixa o reconhecimento amoroso ocupar o centro. Seu sentimentalismo pode soar excessivo a ouvidos desconfiados de baladas, mas existe precisão na maneira como a canção demora sobre um instante. Quarenta anos depois, ela conserva a capacidade de devolver ao ouvinte uma festa, um rosto ou uma ausência.
O tamanho desse êxito acabou encobrindo outras paisagens de seu repertório. Antes do homem de “The Lady in Red”, havia um compositor interessado em contar histórias, criar personagens e sugerir acontecimentos que escapavam à explicação imediata. “Spanish Train” e “A Spaceman Came Travelling” revelam esse gosto pela fantasia e pela construção de cenas. Já “Don’t Pay the Ferryman” encontra tensão numa advertência que parece saída de uma narrativa contada à beira do fogo.
Sua voz favorece esse trânsito entre o íntimo e o teatral. Há uma dicção cuidadosa, um gosto por conduzir a frase até o ponto em que ela pede atenção. Mesmo quando o arranjo se aproxima do pop mais radiofônico, de Burgh preserva algo de narrador: canta como quem conhece o próximo acontecimento e escolhe a hora de revelá-lo. Por vezes, essa solenidade pesa; em seus melhores momentos, dá às músicas uma atmosfera própria.
Aos 78 anos, Chris de Burgh merece uma escuta que atravesse a porta aberta por seu maior hit. “The Lady in Red” continua no salão, com toda a carga afetiva acumulada desde os anos 1980. Nos outros cômodos, porém, há viajantes, presságios e histórias estranhas esperando companhia.