A franqueza de quem já não precisa esconder as próprias contradições atravessa “Pitty”, álbum lançado pela cantora nessa sexta-feira (16). No primeiro disco de inéditas desde “Matriz” (2019), a artista reúne reflexões sobre desejo, separação, maternidade e perdas em um trabalho que encontra energia para seguir adiante mesmo quando revisita experiências dolorosas.
O desejo conduz essa conversa. Na abertura, “Sobremesa” combina entrega aos impulsos com uma afirmação de amor-próprio: querer alguém não significa aceitar qualquer coisa. Já “Armadura” explora o desconforto de baixar a guarda e permitir intimidade depois de aprender a se proteger. A vulnerabilidade aparece como um risco necessário, ainda que difícil de assumir.
Esse movimento ganha outras camadas em “Álbum de Casamento” e “Pileque de Poeta”. Entre o fim de uma relação e a descoberta de novas possibilidades afetivas, Pitty canta uma vida em transformação. As músicas oferecem espaço para reconhecer inseguranças, experimentar vontades e conviver com perguntas que permanecem abertas.
Apesar da densidade dos temas, o disco tem uma vivacidade que impede as confissões de se tornarem pesadas demais. As guitarras de Martin Mendonça preservam a identidade roqueira, enquanto o baixo de Paulo Kishimoto e a bateria de Nico dão movimento aos arranjos. Há balanço e espaço para dançar em meio ao acerto de contas emocional.
É em “Cuidada”, porém, que o álbum encontra seu momento mais delicado. Ao revisitar a relação com a mãe, Laurita, já falecida, Pitty aproxima os conflitos da juventude da compreensão adquirida com a própria maternidade. O que antes parecia cobrança passa a ser percebido também como cuidado. A canção transforma essa mudança de perspectiva em um gesto de carinho atravessado pela ausência.
Para quem acompanha a artista desde “Admirável Chip Novo” (2003), o reencontro tem um significado especial. A inquietação continua presente, agora voltada a questões que o tempo tornou mais complexas. Em “Pitty”, amadurecer rende um rock que reconhece as feridas, sustenta o desejo e ainda encontra prazer em aumentar o volume.