Se um episódio piloto precisa fisgar o público para garantir a sobrevivência de uma série, a temporada final enfrenta um desafio ainda maior: encerrar arcos, amarrar anos de narrativa e entregar um desfecho que seja emocional, satisfatório e, de preferência, criativo. Stranger Things conhece bem esse dilema, e já provou mais de uma vez que sabe superá-lo.
Quando estreou em 2016, ninguém apostaria muito numa série criada por dois nomes praticamente desconhecidos, os irmãos Matt e Ross Duffer. Mas a história de um grupo de amigos carismático lidando com desaparecimentos, conspirações sombrias e uma menina com poderes extraordinários transformou a produção em um dos maiores fenômenos da cultura pop da última década.
As temporadas seguintes oscilaram em recepção, mas ampliaram o universo, o elenco e os riscos. A segunda foi tímida, a terceira mergulhou em cores e referências, e a quarta explodiu em alcance e popularidade com a chegada de Vecna, brutal, perturbador e interpretado com precisão por Jamie Campbell Bower.
“Foi empolgante e assustador ao mesmo tempo”, relembra o ator. “Eu senti um grande senso de responsabilidade com a série, com os Duffer, com o elenco. Foi incrível.”
O retorno a Hawkins — maior, mais tenso, mais isolado
A quinta temporada começa meses após o caos absoluto deixado por Vecna. Hawkins está em quarentena, tomada pelo exército. O portal para o Mundo Invertido permanece como uma ferida aberta na cidade, e Max (Sadie Sink) segue em coma. Hopper, Joyce, Lucas, Mike, Will, Dustin, Steve, Nancy, Jonathan e Robin tentam recompor o cotidiano enquanto se preparam, silenciosamente, para a possibilidade de um novo enfrentamento.
A escala cresceu. Os perigos também. Mas, curiosamente, os quatro primeiros episódios escolhem um caminho mais contido.
Eles funcionam bem ao situar o espectador, onde cada personagem está, o que perdeu e o que teme, enquanto revelam aos poucos o suposto paradeiro de Vecna e a atuação do exército no Mundo Invertido. Narrativamente, são capítulos de alinhamento, não de ruptura.
Dustin brilha, o elenco segura, e a química continua impecável
As atuações mantêm o padrão da série. O grande destaque inicial é Dustin (Gaten Matarazzo), ainda devastado pela morte de Eddie Munson. Mais isolado do grupo, ele se envolve em discussões e explosões emocionais que dão ao ator a melhor versão de seu personagem até agora. A química com Steve continua firme, discussões tão afiadas que parecem de um casal junto há décadas.
Eleven (Millie Bobby Brown) volta a se concentrar no fortalecimento de seus poderes, cercada pela preocupação de Hopper e Joyce. Steve e Robin criam uma rádio clandestina para entreter a cidade e enviar mensagens codificadas para os amigos. Um detalhe simples, mas que reforça o senso de comunidade em meio ao caos.
O triângulo amoroso entre Steve, Nancy e Jonathan ganha força antes de a história mergulhar novamente nas criaturas do Mundo Invertido.
Um começo emocional, mas com pouca ousadia
Apesar de Hawkins ter sido literalmente rasgada ao meio, a temporada abre investindo mais no interior de seus protagonistas do que na nova realidade distópica da cidade. É uma escolha segura, coerente, mas que poderia render mais impacto se explorasse melhor as consequências do colapso.
Os quatro episódios mantêm o carisma, a boa construção e o ritmo narrativo que transformaram Stranger Things em um fenômeno. Mas deixam a sensação de que os riscos poderiam ser maiores. Vecna só domina na parte final, e isso deixa aquele conhecido gosto de “quero mais”.
E de acordo com Jamie Campbell Bower, esse “mais” chega:
“Não. Fica. Mais. Fácil.”
Se a promessa for cumprida, o encerramento deve ser brutal — exatamente como uma série desse tamanho merece.