Nesta segunda-feira, 29 de dezembro, Dexter Holland completa 60 anos sem parecer disposto a aceitar o papel confortável de ícone congelado no tempo. Para o público casual, ele é o rosto e a voz do The Offspring, banda que ajudou a transformar o punk californiano dos anos 1990 em um fenômeno global. Para quem olha com mais atenção, Holland sempre foi algo além do frontman. É um sujeito que usa o barulho como linguagem, mas nunca abriu mão da curiosidade intelectual.
A carreira musical dispensa apresentações. Smash, Ixnay on the Hombre e Americana atravessaram gerações com humor ácido, crítica social disfarçada de refrão grudento e uma ironia que envelheceu melhor do que muito discurso sério da época. O Offspring nunca foi só sobre rebeldia adolescente, pois havia ali uma leitura irônica do fracasso, do tédio suburbano e da cultura de massa. Aos 60, Dexter segue cantando sobre caos com a tranquilidade de quem entende o sistema por dentro.

Dexter é pura energia no palco (Foto: Divulgação)
Fora dos palcos, Holland construiu uma trajetória improvável para um astro do punk. Empresário, fundou a gravadora Nitro Records, impulsionando bandas independentes quando a palavra “indie” ainda não era marketing. Cientista, concluiu um doutorado em biologia molecular, com pesquisa voltada ao HIV. Um detalhe que desmonta qualquer estereótipo de rockstar anti-intelectual. O punk, no caso dele, nunca foi aversão ao conhecimento, mas desconfiança da autoridade vazia.
O estilo de vida também foge do roteiro óbvio. Piloto licenciado, entusiasta da aviação e aventureiro assumido, Dexter já cruzou oceanos em aviões leves e competiu em provas de resistência. Há algo de coerente nisso: a mesma pulsão por liberdade que aparece nas músicas se manifesta no desejo literal de voar. Não é escapismo, é movimento.
A filantropia entra como extensão natural desse percurso. Holland direciona parte de seus recursos e visibilidade para causas ligadas à educação e à ciência, sem transformar isso em espetáculo. É uma postura discreta, quase anti-celebridade, que combina com alguém que nunca pareceu confortável em pedestais.
Aos 60, Dexter Holland representa uma versão rara do envelhecimento no rock, não a do mito intocável nem a da caricatura nostálgica, mas a de alguém que segue acumulando camadas. Punk, sim, mas com laboratório, cockpit, empresa, guitarra e uma curiosidade que se recusa a desacelerar.