Lançado em 2019, Fratura é daqueles filmes que funcionam melhor à noite, quando o silêncio amplia a sensação de paranoia que atravessa toda a narrativa. Dirigido por Brad Anderson, conhecido por thrillers psicológicos que exploram a mente em colapso (O Operário, Transiberian), o longa constrói sua força menos na ação e mais na instabilidade da percepção.
A trama acompanha Ray Monroe, um pai que leva a filha ao hospital após um acidente e, pouco a pouco, passa a desconfiar de que algo está profundamente errado.
O hospital é filmado como um ambiente hostil, frio e despersonalizado, quase um personagem à parte, reforçando a sensação de isolamento.
Brad Anderson opta por uma direção contida, sem excessos estilísticos, mas extremamente calculada. Corredores longos, enquadramentos fechados e uma fotografia opaca colaboram para criar um clima de constante suspeita. O suspense nasce da repetição e da insistência: quanto mais Ray afirma sua verdade, mais o mundo ao redor parece negá-la.
No elenco, Sam Worthington sustenta praticamente o filme inteiro. Sua atuação aposta em um equilíbrio delicado entre desespero genuíno e possível delírio, o que mantém o espectador preso à dúvida até o último ato. Worthington evita exageros, construindo um personagem que pode ser tanto vítima de uma conspiração quanto de sua própria mente. Lily Rabe, no papel da esposa, aparece menos, mas cumpre função essencial como âncora emocional da história, enquanto Lucy Capri completa o núcleo familiar com naturalidade.
Fratura é uma narrativa sobre negação, trauma e a fragilidade da verdade quando filtrada pela dor.
Como dica para este sábado à noite, é uma escolha ideal para quem aprecia thrillers que confiam mais na atmosfera e na atuação do que em sustos fáceis. Um filme que termina, mas continua ecoando, justamente por deixar a pergunta mais incômoda no ar: e se o problema nunca esteve no mundo, mas no olhar de quem o observa?