Após mais de duas décadas sem lançar um disco inteiramente inédito, Guilherme Arantes retorna ao terreno onde sempre se mostrou mais confortável: o do pop sofisticado, melódico e emocionalmente preciso. “Libido da alma”, single que antecipa o álbum Interdimensional, marcado para 15 de janeiro, funciona como um elo direto com o período mais produtivo do artista, entre o fim dos anos 1970 e o início da década de 1990.
Em circulação desde dezembro, a canção chega acompanhada de uma capa criada pelo próprio Arantes, a partir de fotografia de Márcia Arantes, reforçando o caráter artesanal do projeto. Musicalmente, “Libido da alma” aposta em uma atmosfera vintage, com evidente influência da bossa soul que marcou a discografia do cantor na era de sucessos constantes nas rádios. Não é uma música de impacto imediato, mas cresce a cada audição, revelando aos poucos a delicadeza do desenho melódico e a precisão dos arranjos.
A base instrumental é conduzida por um verdadeiro arsenal de teclados clássicos — sintetizador Elka Rhapsody (1974), órgão Hammond C3, Clavinet D3 Hohner com wah-wah, Rhodes Mark V e o tradicional piano Yamaha CP70 — todos tocados por Arantes na gravação realizada na Espanha, onde o artista vive há anos. O baixo de Milton Pellegrin, conhecido por trabalhos com Ed Motta, adiciona um discreto tempero R&B que sustenta a canção com elegância.
Orquestrada pelo próprio compositor e beneficiada pela mixagem precisa de Sylvia Massy, a produção encontra o tom ideal para uma letra que fala de desapego e maturidade sem peso excessivo. Aos 72 anos, Arantes canta com leveza e serenidade versos como “Floresce o amor em cada lírio / Dos vales onde eu semear”, reforçando uma sensibilidade lapidada pelo tempo.
Com ecos claros da estética pop-black que marcou a música brasileira a partir do fim dos anos 1970, associada a nomes como Lincoln Olivetti e Robson Jorge, “Libido da alma” reafirma a assinatura musical de Guilherme Arantes. O single também indica que Interdimensional deve seguir por um caminho menos épico e mais intimista do que o álbum anterior, A desordem dos templários (2021), apostando em um pop vintage que dialoga com o passado sem abrir mão da vitalidade criativa.