Há algo profundamente irônico na história de Yoko Ono. Por décadas, ela foi reduzida a nota de rodapé da mitologia dos Beatles, quando, na verdade, sempre foi terremoto. Antes de dividir manchetes com John Lennon, ela já transitava pela elite da arte conceitual nova-iorquina, orbitando o movimento Fluxus e desmontando convenções estéticas com performances como Cut Piece, onde oferecia o próprio corpo à intervenção do público. Uma metáfora brutal sobre vulnerabilidade e violência que permanece assustadoramente atual.
O problema nunca foi a arte de Yoko, mas, sim, o desconforto que ela causava. Mulher asiática, experimental, intelectual e dona de uma voz que recusava melodias previsíveis, ela virou alvo fácil em uma cultura pop ainda profundamente conservadora. A narrativa de que teria “acabado com os Beatles” ignorava disputas internas já em ebulição e preferia construir uma vilã conveniente. Era mais fácil culpar Yoko do que admitir que a maior banda do mundo estava simplesmente se fragmentando.
Mas se há algo que o tempo faz bem é corrigir caricaturas. Hoje, sua obra musical, especialmente o visceral Plastic Ono Band, soa como prenúncio do punk, do no wave e do experimentalismo que dominaria o underground nova-iorquino. Sua vocalização rasgada, quase primal, influenciou gerações que só décadas depois reconheceriam essa genealogia sonora. Enquanto muitos buscavam refrões, Yoko buscava ruptura.
Também é impossível dissociar sua trajetória da parceria artística com Lennon. Discos como Double Fantasy revelam um diálogo criativo mais complexo do que o imaginário romântico costuma admitir. Não era musa passiva, era coautora de uma virada política e estética. O Lennon ativista, experimental e performático nasce dessa troca.

Lennon e Yoko dividiam um imenso universo artístico (Foto: Divulgação)
Aos 93 anos, Yoko Ono não precisa mais provar nada. Seu legado está menos nas manchetes e mais na coragem de nunca suavizar a própria identidade para agradar plateias. Em um mundo que ainda tenta enquadrar mulheres disruptivas como ameaça, Yoko permanece, intacta, desconcertante, necessária.
Se a história da cultura pop foi escrita muitas vezes por vozes masculinas, a existência de Yoko é um lembrete de que as margens também são centro. E que às vezes a arte mais importante é justamente aquela que incomoda.