Quando Annie Lennox lançou No More “I Love You’s”, em meados dos anos 90, parecia exorcizar uma saturação emocional coletiva. A frase que deveria ser íntima e definitiva surge repetida até perder o peso, até virar eco, até se dissolver no ar como perfume que insiste, mas já não encanta.
A voz de Lennox é quase litúrgica, elegante, com uma ironia delicada que transforma romantismo em desconforto.
A produção minimalista, pontuada por sintetizadores frios e batidas discretas, cria um ambiente entre o onírico e o clínico. Há algo de teatro expressionista ali, um palco vazio onde palavras de amor são atiradas como confetes murchos. O refrão, repetitivo e quase hipnótico, soa como diagnóstico de que amar virou performance, linguagem automática, mantra sem transcendência.
A música não rejeita o amor, no fim das contas, apenas a banalização dele. Annie canta com lucidez, sem desespero. É um manifesto suave contra o excesso de sentimentalismo industrializado. Um lembrete de que, às vezes, o silêncio carrega mais verdade do que mil “eu te amo” jogados ao vento.