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U2 encara o presente em Days of Ash, novo EP da banda irlandesa
EP recoloca Bono Vox no front ideológico, mas divide atenções entre discurso e invenção musical.
Por Redação Rádio VB
Publicado em 19/02/2026 15:18 • Atualizado 19/02/2026 15:19
Música
Days of Ash é um EP honesto, coerente com a trajetória ideológica do U2 (Foto: Divulgação)

Sete anos após o último material inédito, o U2 retorna com o EP Days of Ash, um trabalho curto, direto e assumidamente militante. São seis faixas (cinco canções e um poema falado) — que funcionam como resposta imediata ao noticiário global. Bono volta ao púlpito, à tribuna, ao megafone. E isso, convenhamos, não é novidade. A diferença aqui é o grau de frontalidade.

Antes de qualquer leitura apressada, entender o teor militante de Bono Vox é compreender a própria espinha dorsal do U2. Desde War (1983) até All That You Can’t Leave Behind (2000), a banda construiu parte de sua identidade na intersecção entre fé, política e arena rock. O que muda em Days of Ash é o contexto, e talvez o timing. Num mundo saturado de discursos, o U2 decide falar alto novamente.


Entre a urgência e a fórmula

Musicalmente, o EP caminha por terrenos conhecidos. The Edge mantém sua guitarra etérea, com delays cristalinos e camadas atmosféricas que evocam o U2 dos anos 2000. Larry Mullen Jr. (quando presente) sustenta a base com sobriedade, enquanto Adam Clayton ancora o discurso em linhas de baixo discretas, porém firmes.

“American Obituary” abre o trabalho com tensão crescente, quase como uma continuação espiritual de “Raised by Wolves”. A faixa aposta em pulsação grave e refrão expansivo, ainda que previsível. Já “The Tears of Things” busca uma melancolia mais contemplativa, lembrando o lirismo tardio de Songs of Experience.

“Wildpeace”, o poema falado, é o momento mais ousado, e também o mais divisivo. Funciona como manifesto, mas musicalmente soa como interlúdio conceitual, não como canção.

A faixa que mais se aproxima de um equilíbrio entre mensagem e música é “One Life at a Time”, onde a banda abandona o tom panfletário e abraça a empatia individual. “Yours Eternally”, com participações de Ed Sheeran e Taras Topolia, tenta ampliar o alcance emocional, mas acaba soando mais calculada do que orgânica.

 


O peso da palavra

As letras são diretas, nominais, quase jornalísticas. O EP cita conflitos, líderes mundiais e vítimas reais. Há críticas explícitas a figuras como Donald Trump, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu.

Bono não adota metáforas sutis, ele aponta. Isso pode ser visto como coragem ou como falta de nuance, a depender da lente. O U2 sempre caminhou na linha tênue entre o épico e o didático. Aqui, a balança pende para o segundo.

Ainda assim, há momentos em que a indignação encontra beleza. Quando Bono canta sobre indivíduos, uma mãe, uma adolescente, um ativista, o discurso ganha carne e osso. O problema surge quando a retórica se sobrepõe à construção melódica.


Onde Days of Ash se encaixa na discografia?

O EP não tem a força disruptiva de Achtung Baby, nem o refinamento espiritual de The Joshua Tree. Tampouco arrisca como Zooropa ou Pop. Ele se posiciona mais como extensão temática do U2 tardio. É consciente, reflexivo, mas musicalmente conservador.

Em termos de recepção, o trabalho tende a dividir público e crítica. Parte verá nele a coragem de uma banda veterana que ainda se importa. Outra parte enxergará um grupo preso à própria retórica. Nas plataformas, a repercussão inicial aponta engajamento alto, mas discussões polarizadas, algo coerente com o conteúdo.


Veredito

Days of Ash é um EP honesto, coerente com a trajetória ideológica do U2, mas musicalmente seguro demais. Falta risco sonoro. Sobra intenção.


Não é um retorno grandioso, mas tampouco é irrelevante. É o U2 sendo U2, com todas as virtudes e limitações que isso implica.

 
Nota 8,5 ★★★

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