Lançada em 1989 no álbum Southside, “Everyday Now” pertence a um Texas ainda distante das rádios pop que dominariam os anos 90. Existe algo de noturno na canção, um sentimento de estrada molhada, vitrines apagadas e apartamentos silenciosos em alguma cidade industrial do Reino Unido que sobrevivia ao fim da era Thatcher. A voz de Sharleen Spiteri surge quase cansada, mas nunca frágil. Ela canta observando o mundo pela janela de um ônibus vazio voltando para casa tarde demais.
Musicalmente, a faixa mistura soul branco, blues e aquele rock elegante que parecia resistir ao excesso sintético dos anos 80. O Texas surgiu justamente quando muita gente começava a abandonar os exageros da década anterior. Enquanto Manchester se preparava para a explosão do Madchester e o grunge ainda era apenas um ruído distante vindo de Seattle, bandas como o Texas apostavam em canções mais orgânicas, cheias de espaço, guitarras limpas e emoção contida. “Everyday Now” carrega exatamente esse espírito, sem impressionar, apenas com o intuito de permanecer.
Com o tempo, a música virou uma espécie de fotografia esquecida daquela transição cultural entre os anos 80 e 90. Um período em que o pop britânico parecia cansado do próprio brilho e começava a procurar humanidade outra vez. “Everyday Now” envelheceu bem, sem pertencer ao hype de uma época específica, somente à sensação de caminhar sozinho depois da meia-noite ouvindo uma canção que parece entender sentimentos que nunca se conseguie explicar.