Poucas datas condensam tantas vertentes do rock quanto 21 de agosto. O calendário começa pelos nascimentos de dois artistas que fizeram da voz uma extensão da própria personalidade. Em 1951, nascia Glenn Hughes, baixista e cantor britânico que passou por Trapeze e Deep Purple, flertou com o Black Sabbath e ganhou o apelido de “A Voz do Rock”. Um ano depois veio Joe Strummer, futuro líder do The Clash, músico que colocou punk, reggae, política e inquietação social dentro da mesma mala.
Em 1967, quando Bob Dylan ainda reorganizava sua trajetória depois de eletrificar a música folk, a Columbia Records renovou seu contrato. Cinco anos mais tarde, um show do Jefferson Airplane terminou em confronto, com parte do público atirando pedras contra carros da polícia. Em 1976, os Rolling Stones mostraram a outra face da contracultura. Já transformados em instituição do rock, tocaram diante de uma multidão estimada em 200 mil pessoas.
O peso aumentou em 1977 com o álbum de estreia do Motörhead. Sujo, veloz e indiferente às fronteiras entre punk e heavy metal, o disco apresentou a brutalidade essencial de Lemmy Kilmister. Além de inaugurar uma discografia, aquele trabalho ajudou a criar uma linguagem que seria adotada por gerações de bandas interessadas em tocar alto, rápido e sem pedir licença.
Dez anos depois, o Metallica lançou The $5.98 E.P.: Garage Days Re-Revisited. Gravado com versões de grupos que influenciaram a banda, o EP marcou a primeira passagem pelo estúdio com Jason Newsted após a morte de Cliff Burton. Era um registro cru, quase uma sessão de ensaio transformada em produto oficial, que permitiu ao grupo reencontrar sua força antes de ...And Justice for All. A edição original chegou às lojas em 21 de agosto de 1987 e posteriormente virou objeto de colecionador.
O adeus a Raul
O acontecimento mais doloroso da data para o rock brasileiro ocorreu em 1989. Raul Seixas foi encontrado morto na manhã de 21 de agosto, em seu apartamento, em São Paulo, e não no dia seguinte, como algumas cronologias reproduzem. Aos 44 anos, o Maluco Beleza deixava uma obra construída entre rock’n’roll, filosofia, misticismo, ironia e desobediência.

Raul Seixas foi um dos grandes nomes do rock brasileiro (Foto: Divulgação)
Raul nunca coube inteiramente na caricatura do roqueiro brasileiro. Falava de liberdade individual, fracasso, consumo, religião e controle social com a linguagem de quem parecia conversar na calçada. Em 1992, três anos depois de sua morte, a PolyGram lançou O Baú do Raul, reforçando a permanência de um repertório que o tempo não conseguiu domesticar.
Ainda em 1989, King Diamond lançou Conspiracy, sequência narrativa de Them. Teatral, sombrio e repleto de mudanças de voz, o álbum consolidou o cantor dinamarquês como um dos grandes arquitetos do horror dentro do heavy metal.
O dia em que 1990 explodiu
O 21 de agosto de 1990 foi particularmente generoso com o rock pesado. Na mesma data chegaram discos importantes de Alice in Chains, FireHouse, Jane’s Addiction, Anthrax e Ratt. Um retrato de uma indústria prestes a mudar de pele.

Com Facelift, o Alice in Chains apresentou ao grande público o encontro entre a densidade do metal e a melancolia de Seattle. “Man in the Box” transformaria a voz de Layne Staley em uma presença impossível de ignorar. O álbum demorou a ganhar força comercial, mas ajudou a preparar o terreno para a explosão do grunge e se tornou o primeiro lançamento daquela cena a receber disco de ouro nos Estados Unidos.
No outro extremo, o FireHouse estreou com um hard rock melódico feito para arenas, rádios e videoclipes. O sucesso de faixas como “Don’t Treat Me Bad” e “Love of a Lifetime” mostrou que o glamour dos anos 1980 ainda respirava, mesmo com a sombra de Seattle já avançando sobre o horizonte.
Oasis no auge e Metallica em marcha lenta
Em 1997, o Oasis lançou Be Here Now, talvez o álbum que melhor represente o excesso da era britpop. Cercado por uma expectativa descomunal, o disco chegou como um evento e alcançou o primeiro lugar em diversos países. Guitarras empilhadas, faixas longas e confiança ilimitada registraram uma banda no instante em que o triunfo começava a se transformar em saturação.
Já em 2008, o Metallica apresentou “The Day That Never Comes”, primeiro single de Death Magnetic. A canção começava contida e avançava para um desfecho instrumental carregado de riffs, recuperando parte da arquitetura progressiva que havia marcado os discos do grupo nos anos 1980.
O 21 de agosto, portanto, não pertence a uma única escola. Nele convivem o punk politizado de Joe Strummer, a potência vocal de Glenn Hughes, o ruído fundador do Motörhead, a escuridão do Alice in Chains, o excesso do Oasis e a inquietação permanente de Raul Seixas. Um recorte de calendário que resume o próprio rock, com nascimento e morte, celebração e confronto, tradição e ruptura tocando ao mesmo tempo.