A imagem dos Lençóis Maranhenses captada pelo satélite Landsat 9 parece uma fotografia enviada de outro planeta. Vista do espaço, a sucessão de dunas brancas e lagoas azuladas quase dissolve os limites entre a Terra e a ficção científica. A Nasa definiu o cenário como um “deserto feito de água”. Dez anos antes dessa observação orbital, porém, a Marvel já havia percebido que aquela paisagem carregava algo de extraterrestre.
Lançado em 2018, Vingadores: Guerra Infinita transformou os Lençóis Maranhenses em Vormir, planeta isolado que guarda a Joia da Alma. Uma equipe técnica passou três dias fazendo registros aéreos no parque, em junho de 2017, sob absoluto sigilo. Nenhum ator esteve no Maranhão: as imagens foram combinadas com computação gráfica para compor o ambiente visto no filme. A operação recebeu o codinome “Mary Lou” e exigiu cerca de seis meses de preparação.
Em uma produção repleta de batalhas, heróis e mundos digitais, Vormir funciona como uma pausa sombria. É ali que Thanos, interpretado por Josh Brolin, precisa sacrificar Gamora para conquistar a Joia da Alma. A grandiosidade silenciosa do lugar contrasta com a brutalidade da escolha. As dunas parecem infinitas, enquanto as lagoas acrescentam uma beleza quase melancólica à sequência. O Maranhão, além de aparecer como cenário, participa da atmosfera trágica de uma das passagens mais importantes do filme.
Guerra Infinita impressiona justamente porque coloca o vilão no centro da narrativa. Thanos surge como o personagem que conduz a história e acredita estar agindo em nome de um equilíbrio necessário. Sua lógica é monstruosa, embora apresentada com uma convicção capaz de produzir desconforto. O filme encontra força quando abandona momentaneamente o espetáculo e permite que o peso das perdas ocupe a tela.
Há excessos, como costuma acontecer nas grandes produções da Marvel. São muitos personagens, piadas interrompendo momentos dramáticos e núcleos que disputam espaço dentro de uma narrativa gigantesca. Ainda assim, os irmãos Anthony e Joe Russo conseguem administrar essa engrenagem até chegar a um desfecho corajoso, no qual a derrota deixa de ser uma ameaça e se torna realidade.

Imagem divulgada pela NASA dos Lençóis vistos do espaço (Foto: Divulgação)
A nova fotografia divulgada pela Nasa acrescenta outra camada a essa relação entre o parque e o cinema. O que os efeitos visuais apresentaram como um planeta perdido é, na verdade, uma paisagem maranhense formada pela ação da chuva, dos ventos e do movimento constante das dunas. Quando vista do alto, a natureza confirma o que Guerra Infinita já havia sugerido: para encontrar um cenário de outro mundo, Hollywood precisou olhar para o Maranhão.