O álbum Boston, lançado há exatos 50 anos, chega pronto de algum lugar à frente de sua época. Desde a guitarra dedilhada que abre “More Than a Feeling”, o disco apresenta uma sonoridade ampla, cuidadosamente lapidada e imediatamente reconhecível. O rock de arena ainda buscava sua forma definitiva quando Tom Scholz apareceu com harmonias sobrepostas, refrões monumentais e uma produção que fazia cada instrumento soar maior do que a própria sala.
Grande parte dessa arquitetura do Boston nasceu do perfeccionismo quase obsessivo de Scholz, engenheiro formado pelo MIT que desenvolveu as gravações iniciais em um estúdio montado no porão de casa. A técnica, porém, nunca sufoca as canções. A voz aguda e poderosa de Brad Delp conduz o repertório com naturalidade, especialmente em “Peace of Mind”, “Foreplay/Long Time” e na marcante “More Than a Feeling”. Esta última vai além da nostalgia sugerida pela letra e tornou-se uma daquelas músicas capazes de despertar lembranças até em quem não viveu os anos 1970.
O disco também impressiona pela ausência de excessos. São apenas oito faixas, organizadas com uma precisão rara. Não há espaço desperdiçado nem a sensação de que alguma música foi incluída apenas para completar o repertório. “Rock & Roll Band” transforma a origem do grupo em narrativa mítica, enquanto “Smokin’” acelera o andamento com piano, órgão e guitarras em combustão. Já “Hitch a Ride” revela uma face mais contemplativa, sem abandonar o acabamento grandioso que define o trabalho.
Com sua célebre guitarra em forma de nave espacial estampada na capa, o Boston parecia anunciar uma viagem para o futuro. Meio século depois, o álbum continua familiar e, ao mesmo tempo, difícil de reproduzir.
Muitos grupos tentaram copiar suas guitarras dobradas e seus refrões feitos para estádios, mas poucos alcançaram o equilíbrio entre precisão técnica e emoção popular. Boston permanece como um monumento do rock americano, muito brilhante, acessível e construído para soar enorme, mesmo quando ouvido sozinho e com os fones de ouvido.