O cinema brasileiro já tem seu representante na corrida pelo Oscar 2027. A Academia Brasileira de Cinema escolheu “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, para disputar uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (16).
O longa foi selecionado entre seis finalistas, definidos a partir de uma relação inicial de 15 produções inscritas. A escolha, contudo, não significa que o filme esteja indicado ao Oscar: ela apenas autoriza a produção a representar oficialmente o Brasil no processo conduzido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos.
A lista definitiva de indicados será divulgada em 21 de janeiro de 2027. Antes disso, a Academia norte-americana anunciará, em 15 de dezembro, uma pré-seleção com os filmes que continuarão na disputa. A cerimônia da 99ª edição do Oscar está marcada para 14 de março, no Dolby Theatre, em Los Angeles.
Afeto e intolerância no sertão cearense
Filmado em Quixadá, no Ceará, “Feito Pipa” acompanha Gugu, um menino criado pela avó Dilma, diagnosticada com Alzheimer. Ao perceber que pode ser enviado para morar com o pai, com quem mantém uma relação marcada pela intolerância, ele tenta esconder o agravamento da doença.
Gugu sonha em ser jogador de futebol, mas também gosta de maquiagem e dança. A narrativa aborda a liberdade da infância, o vínculo entre avó e neto, o medo da separação e o amadurecimento precoce diante de uma estrutura familiar hostil.
O elenco reúne Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos. O roteiro é assinado por André Araújo, enquanto Allan Deberton, conhecido por “Pacarrete”, assume a direção.
Antes de entrar na disputa pelo Oscar, o filme construiu uma trajetória relevante em festivais. Na mostra Generation Kplus do Festival de Berlim, conquistou o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri. Em Gramado, recebeu cinco Kikitos, incluindo o de melhor direção.
A estreia nos cinemas brasileiros está prevista para 5 de novembro.
Escolha nacional é apenas a primeira etapa
A partir de agora, “Feito Pipa” enfrentará produções selecionadas por diferentes países, além de filmes habilitados pelas novas regras da categoria internacional.
Para permanecer competitivo, o longa precisará circular entre os votantes da Academia e manter presença em festivais, sessões especiais, premiações e veículos estrangeiros. A existência de uma distribuidora internacional também pode ser determinante para ampliar o alcance do filme nos Estados Unidos.
Campanhas para o Oscar normalmente envolvem exibições em cidades estratégicas, entrevistas com elenco e realizadores, materiais publicitários e participação em eventos do setor. Esse trabalho costuma durar vários meses e exige investimento elevado.
O reconhecimento artístico do filme em Berlim e Gramado oferece uma credencial inicial importante, mas não garante sua entrada na pré-lista nem entre os cinco indicados.
Oscar amplia acesso de filmes internacionais
A edição de 2027 estreia uma mudança significativa em Melhor Filme Internacional. Até a temporada anterior, cada país podia inscrever apenas uma produção por meio de seu comitê nacional.
Essa via continua existindo, mas deixa de ser a única. Filmes predominantemente falados em idioma diferente do inglês também poderão se habilitar diretamente se conquistarem o principal prêmio de seis festivais reconhecidos:
- Urso de Ouro, no Festival de Berlim;
- Palma de Ouro, no Festival de Cannes;
- Leão de Ouro, no Festival de Veneza;
- Grande Prêmio do Júri de Cinema Mundial, em Sundance;
- prêmio de Melhor Filme, em Busan;
- Platform Award, no Festival de Toronto.
A alteração permite que um mesmo país tenha mais de uma obra elegível. Uma produção preterida pelo comitê nacional, por exemplo, ainda poderá entrar na corrida se tiver vencido uma dessas competições.
“Feito Pipa” recebeu o Urso de Cristal na mostra Generation Kplus, e não o Urso de Ouro da competição principal de Berlim. Por isso, sua participação no Oscar ocorre pela seleção oficial realizada pela Academia Brasileira de Cinema.
Prêmio passa a reconhecer o filme e o diretor
Outra mudança está na autoria formal do reconhecimento. A indicação de Melhor Filme Internacional passa a ser creditada à própria obra, em vez de ser atribuída ao país responsável pela inscrição.
Caso o longa vença, o diretor receberá a estatueta em nome da equipe criativa e terá seu nome gravado na placa do Oscar. Anteriormente, o registro oficial identificava o país como vencedor.
Foi sob a regra antiga que “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, conquistou para o Brasil o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. Na edição seguinte, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, recebeu quatro indicações, incluindo Melhor Filme, Filme Internacional e Ator para Wagner Moura.
Cinema brasileiro chega com maior visibilidade
A seleção de “Feito Pipa” ocorre após duas temporadas de forte exposição do cinema nacional. Esse histórico pode fazer com que votantes, distribuidores e imprensa estrangeira observem o novo candidato brasileiro com maior interesse.
A vantagem, entretanto, é apenas de visibilidade. “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” chegaram ao Oscar depois de campanhas estruturadas, passagens por festivais de primeira linha e distribuição internacional consistente.
Para “Feito Pipa”, a escolha nacional abre a porta, mas não conclui a travessia. O desafio agora é manter o filme circulando e fazer com que a história íntima de Gugu e Dilma encontre espaço em uma disputa cada vez mais ampla e competitiva.