Há 56 anos, em 18 de setembro de 1970, Jimi Hendrix deixava o mundo aos 27 anos. Foram apenas quatro anos sob os grandes holofotes, período suficiente para alterar para sempre a linguagem da guitarra elétrica. Hendrix criava tempestades, fazia o ruído cantar e transformava distorção, feedback e silêncio em partes de uma mesma narrativa.
Seu impacto ultrapassou a habilidade técnica. Em discos como “Are You Experienced”, “Axis: Bold as Love” e “Electric Ladyland”, ele aproximou blues, rock, psicodelia, soul e experimentação de estúdio sem respeitar fronteiras. A guitarra podia soar delicada, ameaçadora, sensual ou apocalíptica, muitas vezes dentro da mesma música. “Purple Haze”, “Little Wing”, “Voodoo Child (Slight Return)” e “All Along the Watchtower” permanecem como experiências vivas, não como peças guardadas em um museu do rock.
No palco, Hendrix parecia negociar diretamente com a eletricidade. Em Monterey, incendiou a guitarra; em Woodstock, desmontou o hino dos Estados Unidos até revelar, entre bombas imaginárias e sirenes, as feridas de um país envolvido na Guerra do Vietnã. Aquele solo de “The Star-Spangled Banner” talvez seja sua obra política mais contundente. Não precisava de discurso porque o próprio som denunciava a violência.
Sua morte ajudou a consolidar a mitologia do chamado Clube dos 27, expressão associada a artistas que partiram aos 27 anos, como Robert Johnson, Brian Jones, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse. Hendrix é uma de suas figuras centrais, embora reduzir sua trajetória a essa coincidência macabra seja uma maneira pobre de lembrar alguém tão inventivo. A lenda nasceu da morte precoce, e a permanência veio da obra.
Também há algo de injusto em imaginar o que ele poderia ter criado. Hendrix demonstrava interesse crescente por jazz, funk e novas possibilidades de produção, aproximando-se de músicos como Miles Davis e planejando caminhos que talvez mudassem novamente a música popular. Morreu quando ainda descobria os próprios territórios, em condições até hoje bem controversas.
Passadas mais de cinco décadas, incontáveis guitarristas aprenderam seus gestos, reproduziram seus timbres e perseguiram seus efeitos. Poucos, porém, alcançaram a mesma sensação de risco. Jimi Hendrix continua irrepetível porque sua grande revolução não estava nos pedais ou na velocidade dos dedos, mas na liberdade. Ele fez a guitarra desaprender o que sabia, e, 56 anos depois, o instrumento ainda tenta compreender o que aconteceu.