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Com “Press to Play”, Paul McCartney tentou reaprender o presente
Há 40 anos, o ex-beatle trocava o conforto da própria assinatura pelo risco dos sintetizadores, das baterias monumentais e de uma década que parecia correr mais rápido que ele
Por Redação Rádio VB
Publicado em 19/09/2026 10:17 • Atualizado 19/09/2026 10:17
Música
Press to Play nasceu dessa necessidade de deslocamento (Foto: Divulgação)

Em 1986, Paul McCartney atravessava um momento desconfortável. O fracasso comercial e crítico do filme Give My Regards to Broad Street havia arranhado a imagem do compositor acostumado a transformar quase tudo em acontecimento. Press to Play nasceu dessa necessidade de deslocamento, era preciso abandonar a segurança da nostalgia e descobrir como sua escrita caberia no pop tecnológico dos anos 1980.

Para isso, McCartney dividiu a produção com Hugh Padgham, nome ligado a discos de Peter Gabriel, Genesis, Phil Collins e The Police. O resultado tem baterias enormes, sintetizadores em primeiro plano, guitarras angulosas e vozes submetidas a camadas de estúdio. Em vários momentos, é possível ouvir Paul negociando com a estética da época, e às vezes dominando-a, outras vezes parecendo hóspede dentro do próprio álbum.


“Press”, o single mais conhecido, é pop de laboratório, leve, nervoso e deliberadamente artificial. Seu videoclipe, gravado no metrô de Londres, oferecia um McCartney acessível, misturado aos passageiros, enquanto a música perseguia uma modernidade quase publicitária. Já “Pretty Little Head” leva o disco a um território mais estranho, quebradiço e eletrônico, distante do melodismo imediatamente reconhecível do ex-beatle.

Há espaço, contudo, para o compositor de linhas afetivas precisas. “Footprints” carrega uma melancolia discreta, enquanto “Only Love Remains” recupera o romantismo clássico de Paul sem soar como simples repetição. “However Absurd”, no encerramento, assume um tom teatral e fragmentado, como se o álbum terminasse reconhecendo a própria inquietação.

A presença de Eric Stewart, ex-10cc e parceiro de composição em várias faixas, amplia o caráter coletivo do trabalho. Pete Townshend, Phil Collins, Carlos Alomar e Ray Cooper também aparecem nas gravações. Esse elenco ajuda a explicar a densidade sonora de um disco cheio de ideias, mas nem sempre capaz de encontrar unidade entre elas.


Recebido com reservas e transformado em um dos maiores fracassos comerciais da carreira de McCartney até então, Press to Play envelheceu de maneira curiosa. Suas marcas de época continuam evidentes, porém aquilo que em 1986 pareceu excesso hoje funciona como documento de um artista famoso demais para desaparecer e inquieto demais para apenas repetir o passado.

 
Não é uma obra-prima secreta, tampouco o desastre sugerido por sua reputação. É um álbum irregular, por vezes fascinante, que registra Paul McCartney diante de uma pergunta incômoda: como permanecer contemporâneo quando a história já transformou você em monumento? Quarenta anos depois, a tentativa continua mais interessante do que o fracasso.

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