Quando Avril Lavigne apareceu com Let Go, em 2002, havia algo imediatamente reconhecível naquela voz: a irritação de quem já se cansou de fingir que está tudo bem. “Complicated” implicava com as poses alheias; “Sk8er Boi” contava uma história com a pressa de quem precisa dizê-la antes do fim do recreio. E, em “I’m With You”, a garota de gravata frouxa admitia que também sabia se sentir sozinha.
Aos 42 anos neste domingo (27), Avril carrega uma contradição que ajudou a fazer sua música durar. Seu pop punk tinha a produção calculada para chegar longe, mas falava de constrangimentos e desejos bem pouco arrumados. Muita gente que jamais entraria numa cena punk encontrou ali uma primeira guitarra, uma primeira banda favorita ou uma maneira de cantar alto o que não dizia em casa.
Ela mudou de registro ao longo da carreira. Under My Skin escureceu as cores; The Best Damn Thing apostou no deboche de “Girlfriend”. Nem todas essas escolhas envelheceram da mesma forma, e isso faz parte de uma discografia que preferiu testar versões de si a permanecer presa à adolescente de 2002.
Avril não inventou a rebeldia pop nem precisou ser porta-voz de uma geração inteira. Fez algo mais concreto e deu a milhões de jovens canções para aqueles dias em que crescer parecia uma péssima ideia. Em algum quarto, “Complicated” ainda começa e alguém se reconhece antes mesmo de chegar ao refrão.