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Aos 33 anos, “Vs.” ainda guarda o som de um Pearl Jam acuado e feroz
Segundo álbum da banda transforma pressão em energia e encontra, entre guitarras ásperas e passagens acústicas, uma identidade que atravessou gerações
Por Redação Rádio VB
Publicado em 19/10/2026 09:33 • Atualizado 19/10/2026 09:34
Música
Vs. reúne doze faixas que ampliaram o vocabulário do Pearl Jam depois de Ten

O baixo avança, a bateria aperta o cerco e a voz de Eddie Vedder parece disputar espaço com os instrumentos. “Go” abre Vs. sem oferecer ao ouvinte tempo para se acomodar. Aos 33 anos, completados neste 19 de outubro, o segundo álbum do Pearl Jam preserva essa capacidade de chegar como uma urgência. Seu impacto está na impressão de que cada música precisava ser tocada antes que alguma coisa explodisse.

Lançado em 19 de outubro de 1993, com produção de Brendan O’Brien e da própria banda, Vs. reúne doze faixas que ampliaram o vocabulário do grupo depois de Ten. É um disco de contrastes, em que a violência das guitarras convive com arranjos acústicos e uma interpretação vocal capaz de passar do murmúrio ao grito em poucos segundos.

A diferença pode ser ouvida na textura. Onde a estreia frequentemente parecia buscar grandes espaços, Vs. aproxima os instrumentos e deixa aparecer o atrito. As guitarras de Stone Gossard e Mike McCready se cruzam, abrem frestas, atacam por ângulos diferentes. O baixo de Jeff Ament ganha presença física, enquanto Dave Abbruzzese imprime à bateria um balanço que impede o peso de se tornar rigidez.

“Animal” concentra essa força. O riff tem algo de circular, quase uma armadilha, e Vedder canta como quem tenta escapar dela. Já “Blood” leva o desgaste ao limite.

A voz se rompe, as guitarras arranham e a própria forma da canção parece ameaçada pela intensidade da execução. Há momentos em que o excesso chega perto de estreitar as possibilidades do disco, mas a sequência sabe abrir espaço para outras emoções.


É aí que “Daughter” se torna decisiva. A levada acústica oferece uma superfície acolhedora, atravessada pelo desconforto da narrativa. A beleza melódica não resolve a dor; permite que ela seja percebida com mais nitidez. “Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town” alcança efeito semelhante por outro caminho, encontrando na simplicidade do arranjo a dimensão de uma vida marcada pelo tempo, pela memória e pelo reconhecimento.

Essa alternância dá profundidade a Vs.. A raiva assume formas diferentes: torna-se tensão rítmica em “W.M.A.”, ganha um movimento quase dançante em “Rats” e encontra em “Rearviewmirror” uma de suas expressões mais completas. Nesta última, a repetição das guitarras produz a sensação de deslocamento contínuo. A música cresce como uma fuga que, aos poucos, começa a parecer conquista.

Vedder é o centro emocional desse percurso, embora o álbum dependa da força coletiva para funcionar. Sua voz mantém uma aspereza que aproxima o canto da experiência narrada. Mesmo nos refrões mais abertos, existe resistência, como se alcançar a nota também exigisse atravessar alguma coisa.


O encerramento com “Indifference” é uma escolha especialmente feliz. Depois de tanta descarga, o disco termina em contenção. O baixo sustenta o ambiente, os espaços se alargam e o canto encontra outra maneira de insistir. A intensidade permanece, agora medida pela capacidade de continuar.


Ouvir Vs. hoje é perceber como o Pearl Jam já conseguia dar destinos distintos à própria inquietação. Há fúria, mas também observação, fragilidade e espaço para o silêncio. Trinta e três anos depois, o disco continua vivo nesse equilíbrio instável. Uma banda tocando no limite e descobrindo quanto podia dizer ali.

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