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Nirvana e a voz que ficou na sala
“MTV Unplugged in New York” completa 32 anos preservando a inquietação de uma banda que sabia fazer barulho mesmo em volume baixo
Por Redação Rádio VB
Publicado em 01/11/2026 06:00
Música
MTV Unplugged in New York completa 32 anos carregando uma intimidade difícil de reproduzir (Foto: Divulgação)

O violão começa, Kurt Cobain se aproxima do microfone e “About a Girl” abre a noite sem pedir licença à importância que aquela gravação ganharia. Lançado em 1º de novembro de 1994, MTV Unplugged in New York completa 32 anos carregando uma intimidade difícil de reproduzir. A apresentação havia sido registrada em 18 de novembro de 1993, meses antes da morte de Cobain. Entre o show e a chegada do disco, o contexto mudou dolorosamente a maneira de ouvir cada palavra.

É tentador procurar despedidas em todas as faixas. Essa leitura, porém, pode encobrir a vitalidade do encontro. Há humor nas conversas, cumplicidade entre os músicos e prazer em tocar um repertório pouco preocupado em satisfazer expectativas. Sem “Smells Like Teen Spirit”, o Nirvana deixa espaço para outras entradas em seu universo. “Come as You Are” conserva a ambiguidade familiar, enquanto “Dumb” e “Pennyroyal Tea” expõem melodias que a distorção dos discos ajudava a tensionar.

Dave Grohl toca com contenção, atento ao espaço da voz. Krist Novoselic sustenta as canções sem endurecê-las, e o violoncelo de Lori Goldston acrescenta uma gravidade que parece se espalhar pelo ambiente. O formato permite ouvir de perto o trabalho de Cobain como compositor: os movimentos simples, as frases que retornam, a facilidade com que uma melodia acolhedora encontra uma imagem desconfortável.


Um repertório de afinidades


As versões de outros artistas funcionam como indicações deixadas numa conversa entre amigos. “The Man Who Sold the World”, de David Bowie, ganha uma estranheza quase doméstica na voz de Cobain. “Jesus Doesn’t Want Me for a Sunbeam”, dos Vaselines, aproxima desalento e delicadeza. Já a presença de Curt e Cris Kirkwood, dos Meat Puppets, em “Plateau”, “Oh, Me” e “Lake of Fire” transforma a apresentação em um encontro de afinidades musicais.


Esse trecho diz muito sobre o disco. Cobain usa a visibilidade para dividir suas referências, oferecendo ao público músicas que fazem parte de sua formação. O resultado tem a liberdade de uma coleção pessoal: folk, punk, blues e canções difíceis de acomodar numa prateleira convivem sem explicações.


“All Apologies” concentra uma beleza circular, como se a repetição pudesse prolongar por alguns minutos uma paz instável. A voz acompanha o desenho dos instrumentos e encontra um repouso provisório. O disco sabe sustentar esses instantes sem preenchê-los demais.


A última respiração


O encerramento com “Where Did You Sleep Last Night”, associada à interpretação de Lead Belly, leva a apresentação a outro limite. Cobain começa acompanhando a narrativa e termina consumido pela intensidade do canto. Perto do fim, a respiração interrompe o fluxo por um instante; quando a voz retorna, traz uma aspereza que permanece depois do último acorde.


Aos 32 anos, MTV Unplugged in New York continua permitindo esse encontro próximo com o Nirvana. Há uma banda trabalhando, ouvindo seus convidados, ajustando forças dentro de uma sala. O peso da história está ali, inevitável. Mas basta “About a Girl” recomeçar para que aqueles músicos voltem a ter uma noite inteira pela frente.

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