“Os Beatles tinham sido toda a minha vida.” A frase dita por Paul McCartney no trailer de Man on the Run não soa como nostalgia confortável, mas como confissão crua. O documentário, dirigido por Morgan Neville, parte justamente desse ponto de ruptura: o vazio criativo e emocional deixado pelo fim dos The Beatles, além do medo real de nunca mais conseguir compor.
O filme acompanha o período em que McCartney, em vez de perseguir o passado, decide recomeçar do zero. Surge então o Wings, formado ao lado de Linda McCartney, Denny Laine e Denny Seiwell. Entre imagens caseiras, bastidores de turnês e relatos íntimos, Man on the Run revela um Paul vulnerável, inseguro diante da vida adulta, mas amparado por Linda — parceria afetiva e criativa que atravessaria quase três décadas, até a morte dela em 1998.

A narrativa percorre o caminho acidentado do Wings: da recepção fria do álbum de estreia Wild Life à consagração definitiva com Band on the Run, disco que marcou não apenas a redenção artística de McCartney, mas sua libertação simbólica da sombra dos Beatles. “Quando começamos o Wings, era sobre liberdade”, diz ele no filme, em uma frase que ecoa como manifesto pessoal.

O documentário também toca, sem romantizar, na relação complexa entre Paul e John Lennon após a separação da banda. Há distanciamento, conflitos e silêncios, mas também afeto duradouro. “Tivemos discussões, mas nos amamos durante toda a vida”, afirma McCartney, desmontando a caricatura da rivalidade eterna.
Com acesso a arquivos inéditos, músicas nunca antes ouvidas e um olhar sensível sobre criação, amor e sobrevivência artística, Man on the Run se firma menos como um documentário musical tradicional e mais como um retrato humano de alguém que precisou aprender a existir depois de ter estado na maior banda da história.