“Muito Estranho” atravessou os anos como uma confissão sussurrada no rádio. Lançada no início dos anos 1980, em um Brasil que tentava reaprender a respirar, a música de Dalto encontrou espaço justamente onde o país ainda não sabia nomear seus afetos. Era pop, mas não raso. Era romântica, mas nunca ingênua. Havia ali uma melancolia elegante, quase desconfortável, que fugia do amor óbvio e abraçava a fragilidade.
A força da canção está na simplicidade que dói. Versos diretos, melodia envolvente e um eu lírico que não se coloca como herói, mas como alguém em suspensão. Estranho, deslocado, pedindo cuidado. Dalto canta como quem não tem certeza de nada, e talvez por isso tenha acertado tanto. Em um tempo de discursos inflamados e grandes promessas, “Muito Estranho” apostou no íntimo, no silêncio entre uma frase e outra.
Décadas depois, a música segue atual porque continua dizendo o que muita gente sente e nem sempre consegue falar. Ela toca em memórias, relações interrompidas, amores que ficaram no meio do caminho.
“Muito Estranho”, além de um clássico supremo da MPB-pop dos anos 80, é um estado de espírito. Um lembrete de que sentir demais nunca foi fraqueza, só exige coragem.