Quatro décadas depois, Selvagem? permanece como um dos discos mais inquietos e necessários do rock brasileiro. Em 1986, enquanto o país ensaiava a redemocratização e redescobria suas próprias feridas, Os Paralamas do Sucesso trocaram a leveza juvenil dos primeiros trabalhos por uma sonoridade mais densa, politizada e urbana. O resultado foi um álbum que misturou reggae, rock, dub e crítica social com naturalidade rara.
Entre as faixas mais emblemáticas está “Alagados”, talvez o retrato mais direto das desigualdades brasileiras já transformado em hit radiofônico. Ao citar comunidades como Alagados (BA), Trenchtown (Jamaica) e a favela da Maré (RJ), a canção conecta periferias globais sob o mesmo abandono estrutural.
A batida reggae suaviza o impacto, mas a letra é contundente. Fala de barracos, exclusão e invisibilidade. Ainda soa atual demais.
Já “A Novidade”, parceria com Gilberto Gil, amplia essa crítica com lirismo e metáfora. A imagem do “menino que nasceu no mar” transforma a exclusão social em fábula amarga. A música é sofisticada na construção harmônica e ousada na proposta. Funde pop radiofônico com densidade poética, mostrando uma banda que dialogava com a tradição da MPB sem abrir mão da energia roqueira.
Em outra direção, “Melô do Marinheiro” mergulha no deboche e na malícia, explorando ritmos caribenhos e uma leveza irônica que equilibra o peso político do disco. É a prova de que o trio sabia alternar denúncia e irreverência sem perder identidade.
A faixa título, “Selvagem?”, funciona como manifesto. Questiona o conceito de civilização, expõe contradições sociais e ironiza a ideia de progresso. O ponto de interrogação não é detalhe, é provocação.
Aos 40 anos, Selvagem? continua sendo mais que um marco discográfico. É um documento histórico de um Brasil que buscava se entender e que, em muitos aspectos, ainda busca.
Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone entregaram ali um trabalho que extrapola o rótulo de “rock dos anos 80” e se mantém como referência estética e política. Um disco que não envelhece porque, infelizmente, suas perguntas ainda não foram totalmente respondidas.