O cinema perde um de seus intérpretes mais sólidos e silenciosamente grandiosos. Robert Duvall partiu aos 95 anos (causa não divulgada), deixando para trás uma galeria de personagens que não gritavam para existir, apenas respiravam. E era nessa respiração, quase invisível, que morava sua força.
Duvall nunca precisou do excesso. Sua arte estava na economia do gesto, no olhar que carregava décadas de frustrações ou lealdade, no timbre que misturava firmeza e cansaço. Em O Poderoso Chefão, foi Tom Hagen, o conselheiro racional em meio à tempestade da família Corleone. Uma presença que equilibrava pólvora e silêncio.

Robert Duvall contracenou com Marlon Brando em O poderoso Chefão (Foto: Divulgação)
Em Apocalypse Now, tornou-se o tenente-coronel Kilgore, figura quase operística, eternizada na frase sobre o cheiro de napalm pela manhã. Já em A Força do Carinho, atuação que lhe rendeu o Oscar, mostrou a fragilidade de um homem tentando reencontrar dignidade no interior do Texas.
Sua trajetória começou no teatro, nos anos 1950, forjada na disciplina do palco e no estudo obsessivo do comportamento humano. O cinema o acolheu no início dos anos 1970, e ele rapidamente se tornou parte do imaginário da Nova Hollywood, transitando por obras como A Conversação e Rede de Intrigas. Não era um ator de pirotecnia, e sim de combustão lenta.
Robert Duvall entendia que a grandeza estava na verdade. Muitos colegas o viam como mestre, alguém que ensinava que intensidade não é exagero, mas compromisso absoluto com o personagem. Sua ausência no terceiro “Poderoso Chefão” não diminuiu sua estatura, pelo contrário, reforçou sua autonomia artística.
Ao longo de mais de sete décadas, Duvall encarnou soldados, juízes, músicos decadentes, homens comuns à beira do abismo. Personagens que pareciam sempre carregar o peso da noite americana, aquela em que restam poucos dólares no bolso e muita história nos olhos.
Com sua partida, o cinema perde, além de um ator premiado, um intérprete da condição humana. Mas suas performances seguem vivas, como ecos graves em salas escuras, lembrando que a arte, quando feita com verdade, nunca morre.