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Back to Black: talento à flor da pele, biografia sob controle
Cinebiografia de Amy Winehouse aposta na contenção emocional, mas encontra força na atuação magnética de Marisa Abela.
Por Redação Rádio VB
Publicado em 17/02/2026 18:58 • Atualizado 17/02/2026 19:00
Entretenimento
Marisa Abela entrega uma performance comprometida e intensa (Foto: Divulgação)

⭐⭐⭐  Nota: 7,5 


Há um risco constante em transformar ícones trágicos em narrativa cinematográfica. Ou o filme mergulha fundo demais no sensacionalismo ou pisa leve demais para não ferir memórias. Em Back to Black, dirigido por Sam Taylor-Johnson, a escolha fica clara ao acompanhar Amy Winehouse com humanidade e sobriedade, evitando tanto o escândalo quanto a mitificação exagerada.

A história percorre o caminho entre os pequenos palcos de Camden e a explosão global com o álbum Back to Black, marco definitivo da música pop do século XXI. O foco não está apenas na ascensão meteórica, mas nas engrenagens que a impulsionam, como indústria, família, amor e autossabotagem. A Amy retratada no filme quer cantar o que vive, sem filtros, sem concessões. E é justamente nessa insistência artística que a obra encontra seus melhores momentos.

Marisa Abela entrega uma performance comprometida e intensa. Sua interpretação não busca imitação caricata, há esforço em capturar gestos, fragilidades e aquela mistura rara de arrogância e vulnerabilidade que definia Winehouse. É quando ela está no palco, ou diante do microfone, compondo, que o longa realmente pulsa. A câmera parece respirar com ela.

O relacionamento com Blake Fielder-Civil (vivido por Jack O'Connell) é tratado como eixo emocional. Não há glamourização explícita, mas tampouco um mergulho analítico mais profundo. O filme sugere o impacto devastador da relação, porém evita dissecar as dinâmicas tóxicas com a complexidade que o tema exige. Essa escolha mantém a narrativa fluida, e também a torna mais superficial do que poderia ser.

Outro ponto delicado é a figura do pai, Mitch Winehouse (interpretado por Eddie Marsan). O roteiro opta por um retrato relativamente equilibrado, insinuando controle e ambição, mas sem aprofundar conflitos mais controversos. Para quem espera uma investigação mais incisiva sobre os bastidores da fama, pode soar como uma abordagem contida demais.

A reconstrução da criação do álbum Back to Black é o grande trunfo dramático. O processo criativo surge como válvula de escape e afirmação artística. A trilha, obviamente, sustenta boa parte da experiência. Lembrar da potência de músicas como “Rehab” e “Love Is a Losing Game” reforça o tamanho da perda que o mundo sofreu.

Back to Black não é um filme devastador nem revelador. É uma cinebiografia respeitosa, às vezes excessivamente cautelosa, que prefere sugerir em vez de confrontar. Funciona melhor como homenagem do que como análise profunda. Ainda assim, graças à entrega de Marisa Abela e à força eterna das canções, o longa emociona, mesmo quando evita sangrar.

No fim, permanece a sensação de que Amy era maior do que qualquer enquadramento. E talvez nenhum filme consiga capturar por completo o que havia por trás daquela voz que parecia sempre à beira do abismo.


No momento, o filme está disponível apenas para aluguel na Amazon e Apple TV, por R$ 14,90, além de Google Play Filmes e Youtube, por R$ 6,90. 

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