Certos discos encerram uma fase sem perceber. A Pedra do Gênesis, lançado há exatos 38 anos, parece fazer justamente o contrário. Raul Seixas revisita as próprias obsessões como quem tenta começar tudo outra vez. Ocultismo, liberdade individual, desconfiança das instituições e ironia reaparecem em um trabalho irregular, mas profundamente ligado à personalidade de seu autor.
Naquele fim de década, Raul já carregava no corpo as consequências dos problemas de saúde e dos excessos. Também enfrentava um mercado musical diferente daquele que o consagrara nos anos 1970. Em vez de se adaptar às tendências, preferiu retornar à figura do pregador anárquico, cercado por símbolos, perguntas e pequenas provocações contra a vida domesticada.
A faixa-título recupera o universo místico que sempre rondou sua obra, enquanto “A Lei” transforma a liberdade em princípio quase espiritual. Em “Check-Up”, Raul fala do próprio estado físico com humor amargo. Já “Não Quero Mais Andar na Contramão”, versão de “No No Song”, de Ringo Starr, soa como confissão irônica de alguém tentando negociar com os hábitos que o consumiam.
O álbum não possui a força contínua de Krig-ha, Bandolo!, Gita ou Novo Aeon. Sua importância está em outro lugar. Existe nele uma fragilidade sem maquiagem, como se a voz do personagem e a do homem já não conseguissem permanecer separadas. Raul ainda provoca e ri, mas por trás da encenação aparece uma melancolia difícil de esconder.
A Pedra do Gênesis seria o último álbum solo do cantor. No ano seguinte, ele dividiria com Marcelo Nova o definitivo A Panela do Diabo. Ouvido hoje, o disco de 1988 permanece como uma despedida involuntária. Não o epitáfio solene de um ídolo, mas o registro inquieto de um artista que, mesmo enfraquecido, continuava procurando a saída fora da estrada principal.