O período mais cercado de dúvidas da vida de Belchior será levado aos cinemas em Viver é Melhor que Sonhar. Dirigido por Eduardo Albergaria, de Nosso Sonho, o longa abandona o modelo tradicional das cinebiografias para acompanhar os anos em que o cantor deixou para trás o patrimônio, a rotina e a identidade pública construída ao longo de décadas.
A narrativa começa quando a história convencional de sucesso já terminou. Em vez de reconstruir a saída do Ceará, o abandono da medicina ou a consagração nacional, o filme segue Belchior pelas estradas ao lado de Edna, seu novo amor. Luiz Carlos Vasconcelos interpreta o compositor, enquanto Isabela Garcia vive sua companheira.
Mesmo tentando se afastar da vida anterior, Belchior continuava sendo reconhecido por onde passava. Durante a viagem, o casal encontrou abrigo e ajuda entre admiradores que abriram suas casas. Essa relação entre o artista em fuga e o público que não o esqueceu forma o eixo dramático da produção.
Uma cinebiografia depois da fama
O projeto começou a ser desenvolvido há cerca de dez anos, após a publicação da reportagem A Divina Tragédia de Belchior, de Marcelo Bortoloti. A pesquisa também teve como referências os livros Belchior: Apenas um Rapaz Latino-Americano, de Jotabê Medeiros, e Viver é Melhor que Sonhar: Os Últimos Caminhos de Belchior, escrito por Chris Fuscaldo e Bortoloti.
Para reconstruir essa etapa da vida do compositor, a equipe realizou 78 entrevistas no Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Uruguai. Documentos, fotografias, arquivos particulares e relatos de pessoas que conviveram com o artista ou acolheram o casal também ajudaram a compor o roteiro assinado por Albergaria e Daniel Dias.
Segundo o diretor, a escolha foi investigar não apenas o desaparecimento, mas o peso que o próprio sucesso passou a exercer sobre Belchior. O longa procura apresentar uma interpretação possível para o afastamento que despertou curiosidade em todo o país, sem limitar o músico ao enigma criado em torno de seus últimos anos.
Além dos protagonistas, o elenco reúne Karine Teles, Augusto Madeira, Lucas Penteado, Nabiyah Be, Márcio Vito, Marina Provenzzano, Lolla Belli e o argentino Luciano Cáceres.
Rodado no Brasil e no Uruguai, Viver é Melhor que Sonhar assume a forma de um road movie para observar um artista que transformou o deslocamento em tentativa de liberdade. Produzido pela Urca Filmes, em coprodução com a H2O Produções, o filme estreia em 3 de dezembro.
O lançamento ocorre em um ano emblemático para a obra de Belchior. Em 2026, o músico completaria 80 anos, enquanto Alucinação, álbum que consolidou sua voz entre as mais inquietas da música brasileira, chega ao cinquentenário.