A guitarra entra áspera, repete quatro acordes e parece não ter qualquer plano além de estragar a festa. Lançada em 10 de setembro de 1991, “Smells Like Teen Spirit” completa 35 anos nesta quinta-feira (10) ainda carregando uma sujeira difícil de arquivar. O tempo transformou o riff em patrimônio pop, mas não conseguiu domesticar inteiramente o mal-estar que existe debaixo dele.
Kurt Cobain canta alternando deboche, cansaço e um ataque de nervos no mesmo corredor de escola. As palavras surgem embaralhadas, resistentes a uma interpretação definitiva. Faz sentido, já que a música não organiza a inquietação adolescente, apenas lhe empresta volume. O verso se arrasta com falsa indiferença, o refrão explode quando a apatia já não consegue permanecer sentada.
A produção de Butch Vig deu contornos nítidos ao barulho sem retirar sua ferrugem. Dave Grohl toca como se cada virada pudesse derrubar uma parede, enquanto o baixo de Krist Novoselic mantém a canção em movimento por baixo da confusão. O resultado vive numa contradição curiosa, é agressivo e acessível, desalinhado e perfeitamente calculado para atravessar o rádio.
Talvez o detalhe mais estranho seja perceber como uma faixa nascida do desencanto acabou incorporada à mesma engrenagem cultural que parecia ridicularizar. Virou trilha de festas, camisetas, anúncios e retrospectivas. Ainda assim, quando o volume sobe, sobra algo que não cabe na nostalgia. “Smells Like Teen Spirit” permanece forte como uma fotografia de 1991, mas se fixa com aquele ruído no quarto ao lado. Familiar, incômodo e impossível de ignorar.