Na manhã de 11 de setembro de 2001, há exatos 25 anos, a música ainda era um objeto. Comprava-se em lojas, vinha protegida por plástico e ocupava espaço na estante. O CD concentrava quase todo o mercado fonográfico norte-americano, a fita cassete agonizava, o vinil sobrevivia como peça de subsolo e o download pago mal existia. A indústria parecia sólida, embora já houvesse uma rachadura percorrendo sua superfície polida.
Essa fissura atendia pelo nome de Napster. O programa havia sido retirado do ar em julho, mas sua ausência não devolveu à música a antiga ordem. O público já descobrira que uma canção poderia circular sem capa, disco ou autorização. Dias depois dos atentados às torres gêmeas, a empresa fecharia um acordo de US$ 26 milhões com editoras musicais por infrações passadas, enquanto ainda tentava negociar com as grandes gravadoras. O Kazaa ocupava o terreno abandonado e espalhava arquivos com nomes errados, vírus e a promessa clandestina de um catálogo infinito.
O futuro oficial ainda esperava nos bastidores. O primeiro iPod seria apresentado pela Apple em 23 de outubro, com a ideia então extravagante de carregar mil músicas no bolso. A loja do iTunes só abriria em abril de 2003. Daniel Ek, futuro fundador do Spotify, tinha 18 anos; Justin Bieber, sete; Justin Timberlake, aos 20, ainda pertencia ao mundo das boy bands. O streaming não passava de uma possibilidade sem forma, distante do gesto automático que hoje acompanha o café, o ônibus ou a insônia.
Nas lojas daquele 11 de setembro chegava Glitter, trilha sonora de Mariah Carey que seria inseparável da data, do fracasso posterior do filme e de uma injustiça crítica revista anos mais tarde. Nas paradas, o álbum homônimo de Aaliyah havia alcançado o topo da Billboard 200 após a morte da cantora, ocorrida em 25 de agosto. “I’m Real”, de Jennifer Lopez com Ja Rule, dominava a parada de singles. Pop luminoso, R&B de desenho futurista e luto conviviam nas mesmas prateleiras.
O circuito de shows ainda movimentava nomes como Janet Jackson, Sade, Aerosmith e Dave Matthews Band. O U2 acabara de anunciar, em 10 de setembro, uma nova etapa norte-americana da Elevation Tour. No dia seguinte, qualquer calendário cultural perdeu momentaneamente o sentido. Turnês foram revistas, lançamentos desapareceram sob a cobertura contínua da televisão e canções passaram a ser ouvidas dentro de outro silêncio.
A indústria musical daquele dia era grande demais para imaginar sua própria obsolescência. Vendia bilhões em suportes físicos enquanto o modelo que a desmontaria circulava por conexões lentas e computadores domésticos. O 11 de Setembro interrompeu brutalmente a rotina do mundo. No campo da música, também acabou congelando a fotografia de uma era em seus minutos finais. O CD reinava, o arquivo digital era tratado como inimigo e ninguém ainda havia aprendido a dizer playlist como quem diz memória.