Levar Chico Science ao teatro pede mais do que organizar uma vida em ordem cronológica. Sua música nasceu do encontro, do ruído e da circulação de ideias entre a lama dos manguezais e as antenas da cidade. É por esse caminho que pretende seguir um musical dedicado ao artista pernambucano, com direção de Pedro Granato e estreia prevista para agosto de 2027, no Recife.
O projeto chega entre duas datas. Chico teria completado 60 anos em 2026 e, em fevereiro de 2027, sua morte completará três décadas. O cantor morreu aos 30 anos, em um acidente de carro, deixando uma obra que continuou a encontrar ouvintes e desdobramentos muito além de sua geração.
À frente da Nação Zumbi, Chico ajudou a formular uma linguagem em que o peso das alfaias podia dividir espaço com guitarras, rap e experiências eletrônicas. O manguebeat colocou a cultura pernambucana em circulação por novas rotas, com uma música atenta tanto às tradições locais quanto às contradições da vida urbana.
Ficção científica, quadrinhos e memória
A montagem aposta em uma narrativa não linear, atravessada por elementos de ficção científica e histórias em quadrinhos. A proposta é levar ao palco algo da imaginação que alimentava Chico, permitindo que a trajetória do artista e a história da Nação Zumbi sejam contadas por diferentes tempos e referências.
Essa escolha oferece uma possibilidade interessante: tratar a memória como matéria de criação. Em vez de depender apenas da reprodução de episódios conhecidos, o espetáculo poderá explorar o repertório visual e sonoro de um movimento que fez da mistura um modo de pensar a cidade.
A história também abrirá espaço para parceiros como Fred 04, do Mundo Livre S/A, autor do manifesto Caranguejos com Cérebro, e para a contribuição dos blocos afro. São presenças importantes para compreender o manguebeat como uma construção coletiva, feita por artistas e grupos que compartilhavam inquietações e encontravam maneiras próprias de colocá-las em circulação.
Audições no Recife
O ator que interpretará Chico Science será escolhido em audições na capital pernambucana. Depois da estreia no Recife, o musical tem apresentações previstas em Salvador, São Paulo e Brasília.
O desafio será encontrar uma presença capaz de sustentar no palco a inquietação do artista. A voz, o corpo e a maneira de ocupar a cena faziam parte de uma mesma pesquisa. Quase três décadas depois de sua morte, é essa disposição para experimentar que ainda torna Chico uma referência e que pode dar ao musical uma vida para além da homenagem.