Em 23 de agosto de 2005, o Charlie Brown Jr. lançava Imunidade Musical, disco que nasceu em meio a uma das fases mais turbulentas da história da banda. Champignon, Marcão Britto e Renato Pelado haviam deixado o grupo, enquanto Thiago Castanho retornava à guitarra, acompanhado por Heitor Gomes no baixo e Pinguim Ruas na bateria. Cercado por dúvidas, Chorão respondeu da maneira que conhecia, gravando um álbum longo, inquieto e movido pela necessidade de continuar.
Produzido por Rick Bonadio, Imunidade Musical preservou a mistura de rock, rap, reggae, hardcore e cultura do skate que tornou o Charlie Brown Jr. reconhecível desde os primeiros acordes. A nova formação não tentou reproduzir mecanicamente o passado. Músicas como “No Passo a Passo”, “É Quente” e “Liberdade Acima de Tudo” apresentam uma banda mais encorpada, ainda agressiva, mas interessada em ampliar as possibilidades de sua própria linguagem.
O álbum também revelou o lado mais vulnerável de Chorão. “Ela Vai Voltar (Todos os Defeitos de uma Mulher Perfeita)” transforma saudade e imperfeição amorosa em refrão popular, enquanto “Senhor do Tempo” observa a passagem dos anos com uma serenidade pouco habitual em sua obra.
Já “Lutar pelo que É Meu” carrega aquela combinação tipicamente charliebrowniana de teimosia, afeto e sobrevivência — a certeza de que seguir adiante também pode ser uma forma de confronto.
Mas é “Dias de Luta, Dias de Glória” que acabou se tornando o grande testamento emocional do disco. A faixa atravessou a discografia da banda para ocupar um espaço afetivo na música brasileira. Depois da morte de Chorão, em 2013, versos antes ligados à persistência juvenil ganharam outra dimensão: passaram a soar como memória, despedida e conselho deixado por alguém que viveu tudo em volume máximo.
Há excessos em Imunidade Musical. O repertório extenso oscila entre momentos essenciais e ideias que poderiam ter sido condensadas. Ainda assim, essa falta de medida combina com o próprio Chorão, artista incapaz de entregar sentimentos pela metade. O disco vendeu mais de 100 mil cópias, recebeu certificação de ouro e foi indicado ao Grammy Latino na categoria de melhor álbum de rock ou música alternativa em língua portuguesa.
Vinte e um anos depois, Imunidade Musical permanece como o registro de uma banda que parecia ameaçada de desintegração, mas encontrou força justamente na mudança. Para além de um álbum sobre resistir aos outros, trata-se de um disco que criou anticorpos contra as próprias quedas, e continuar andando quando o futuro parece um labirinto.