Uma viagem de barco entre Macapá e Afuá, no arquipélago do Marajó, deu à Tribo de Jah o ponto de partida para seu novo lançamento. Durante a travessia, Fauzi Beydoun dividia conversas e paisagens com Pinduca, referência da música popular paraense. Os dois seguiam para uma festa. Da convivência nasceu a inspiração para “Carimbó – Reggae”, composição que aproxima o balanço jamaicano da pulsação dos tambores amazônicos.
A faixa antecipa o álbum Tribo de Jah – One by One, previsto para 2027, e transforma uma experiência de estrada — neste caso, de rio — em homenagem ao Pará, a Belém e aos artistas que fazem sua música circular.
“Viajar com ele no mesmo barco de Macapá a Afuá, na Ilha de Marajó, foi simplesmente genial e um aprendizado”, recorda Fauzi.
Uma conversa entre ritmos vizinhos
O encontro proposto pela canção tem antecedentes na própria trajetória da Tribo. Xote, baião, embolada e samba já passaram pelo repertório do grupo, formado em São Luís. Para Fauzi, essas aproximações encontram espaço na estrutura do reggae, gênero que também se desenvolveu a partir de sucessivas trocas musicais.
“O reggae é uma música que pode se fundir a diversos outros ritmos de forma natural”, afirma o compositor.
Em “Carimbó – Reggae”, essa disposição ganha um endereço próximo. Maranhão e Pará compartilham caminhos de circulação cultural que atravessam fronteiras administrativas. Festas, embarcações, discos e músicos ajudam a manter esse trânsito, alimentado por matrizes afro-indígenas e por diferentes maneiras de fazer do ritmo uma experiência coletiva.
São Luís construiu sua relação com o reggae nas radiolas, nos clubes, nas coleções de discos e na dança a dois. O carimbó, por sua vez, carrega formas próprias de reunir música, corpo e celebração popular. A composição de Fauzi procura uma passagem entre esses universos sem apagar seus sotaques.
Pinduca e o reconhecimento que atravessa fronteiras
A presença de Pinduca na origem da música também abre uma discussão sobre quem ganha visibilidade na produção cultural brasileira. Fauzi vê no artista paraense um nome de primeira grandeza, cuja contribuição mereceria maior projeção fora da região Norte.
Ao lembrar também o Gaúcho da Fronteira, o vocalista questiona a concentração histórica da indústria fonográfica nos grandes centros. Sua homenagem nasce dessa admiração por artistas que construíram públicos e repertórios duradouros, mesmo recebendo uma atenção desigual nos espaços nacionais de divulgação.
A canção apresenta a Amazônia por meio de quem produz música, promove festas e compartilha conhecimentos. A viagem e o encontro com Pinduca oferecem uma experiência concreta para essa narrativa: há um destino, uma celebração e músicos aprendendo uns com os outros pelo caminho.
Os DJs também entram na história
“Carimbó – Reggae” reserva espaço para Margalho, Alex Roots e Vitor Pedra. A lembrança dos DJs reconhece o trabalho de quem seleciona repertórios, apresenta novidades e sustenta a relação cotidiana do reggae com seus ouvintes.
No Maranhão, essa atuação ajuda a explicar como o gênero criou raízes tão profundas. Entre uma faixa e outra, os discotecários formam públicos, preservam gravações e dão continuidade a uma cultura que depende tanto dos palcos quanto das pistas.
Novo disco no horizonte
O lançamento encontra a Tribo de Jah em circulação pelo país. Após participar do programa Bem Brasil, em setembro, e passar por estados de diferentes regiões, a banda mantém apresentações previstas até dezembro.
Atualmente formada por Fauzi Beydoun, Pedro Beydoun, Aquiles Rabelo, Netto Enes e João Rodrigues, a Tribo tem sua origem ligada à Escola para Cegos de São Luís. Dessa experiência surgiria uma trajetória que inclui o Sunsplash Festival, na Jamaica, o Rock in Rio de 2001 e turnês internacionais.
Canções como “Uma Onda que Passou”, “Regueiros Guerreiros” e “Morena Raiz” ajudaram a construir essa história. Com “Carimbó – Reggae”, o grupo volta a atenção para uma vizinhança musical ainda cheia de possibilidades. O próximo capítulo começou numa conversa a bordo.